quarta-feira, março 30, 2005

Estamos em São Paulo

Descobrimos que Toronto é a versão gelada e "primeiro-mundista" de São Paulo. OK, as diferenças são muitas - você olha em volta, vê a neve, parques, a segurança de se andar nas ruas e as coisas todas funcionando como se espera que funcionem no Canadá. Toronto, além disso, é grande (tem 2,5 milhões de habitantes), mas quatro vezes menor do que São Paulo. Teoricamente, não tem nada a ver.

A semelhança é, na verdade, em relação à percepção que se tem das cidades, dentro e fora delas. Toronto não é muito querida no Canadá, assim como a capital paulista no Brasil. Descobrimos isso hoje, depois de assistimos a uma reportagem hoje sobre um livro chamado "Porque todos odeiam Toronto?", lançado recentemente.

Além de ouvir o autor do livro, o repórter foi a outras quatro grandes cidades canadenses (Vancouver, Calgary, Edmonton e Montreal) para saber o que pessoas de lá acham de Toronto. As respostas são incrivelmente familiares. Sobre os torontenses, fala-se que são "frios, arrogantes, egocêntricos, exibidos" e que "só pensam em dinheiro". Quanto à cidade, os adjetivos variam entre "suja" e "chata", um lugar onde não se pode ficar, apenas visitar. Dizem que no interior perguntam como que alguém pode viver em Toronto. "Lá é tão perigoso!". Claro, eles não fazem idéia.

Assim como São Paulo, Toronto se acha o máximo. Gosta de lembrar que é "o motor econômico do Canadá". Só que, assim como São Paulo, sofre com baixa auto-estima, sabe que tem problemas e que eles estão fora de controle - guardadas as devidas proporções (abrindo parênteses, a palavra "problema" tem um significado muito diferente no Canadá. Aqui, ela é sinônimo de buracos no asfalto, morte das focas cinzentas ou gripe do primeiro-ministro. É assunto para outra hora).

Nossa impressão até agora é de que gostamos daqui. Mas sabemos definitivamente que temos que aprender francês.


Hoje, é aniversário de uma pessoa muito importante na minha vida. Foi ele quem me catequisou musicalmente, me fazendo beber de música andina a Iron Maiden. Foi ele quem me levou a shows do Arrigo Barnabé e me esperou do lado de fora do show do Metallica. Foi ele quem me apresentou um tal de Egberto Gismonti, riu da minha cara quando ouvi "Araçá Azul", me explicou muitas letras do Caetano, me fez amar o Chico e me ensinou a tocar berimbau. Com ele, corri atrás do Satriani depois do show no Olympia, fui ao primeiro show da minha vida (Djavan), aos 13 anos, e fingi ser um cabeludo para usar o banheiro masculino do Pacaembu. Por ele, até aguento ouvir o trash metal da banda dele, o "Impact".
Se a importância dele se resumisse só à parte musical, este post talvez estaria chegando ao fim. Mas a importância do Gé está em tudo na minha vida. Está nos meus sonhos, nos meus planos, nas minhas conquistas. É por isso que eu queria homenageá-lo hoje e dizer o quanto eu o admiro, principalmente como pai. Um beijo grande da sua irmãzinha caçula que te ama!
 Posted by Hello

segunda-feira, março 28, 2005

Páscoa feliz

Nossa Páscoa não teve missa, nem ovo de chocolate, nem Colomba Pascal, nem almoço especial, nem congestionamento na estrada. Nossa refeição foi uma mistura de resto de geladeira com feijão queimado. Até fomos fazer compras para tentar melhorar o cardápio, mas o supermercado estava fechado.
Foi um domingo sem mesa farta, mas querem saber? Foi um dia muito feliz! Vimos nossas famílias pela webcam e conversamos um tempão com todos eles. Pudemos rever até a dona Lucilia ("nossa" avó) e a Carolzinha (sobrinha, agora com 5 meses). Vimos também nossos pais, o Raul e a Meire.
Pena que não pudemos ver o Gé e as crianças (Fernando e Mauricio). Eles foram embora antes de terminar a instalação da câmera. Mas antes de se despedir, o Mauricinho (6 anos) queria mostrar para a gente, a todo custo, o carrinho que ganhou. "Olha o carrinho que a gente ganhou! É verde e acende a luzinha", gritava no microfone do computador. Nem precisamos da câmera para saber o tamanho do sorriso dele!

domingo, março 27, 2005

Experiência antropológica na noite de Toronto

Quem nos conhece bem, sabe que a gente não é exatamente um casal muito baladeiro. Nossos programas são, geralmente, pegar um cineminha, comer uma pizza, tomar algo num bar ou alugar um bom DVD. Mas agora que estamos em outro país, ficamos curiosos para ver o que os canadenses fazem num sábado à noite. E lá fomos nós fazer o que mais odiamos: ouvir putz, putz numa danceteria de playboy (de graça, claro).
O que dizer desta experiência? Bom, foi no mínimo curioso. Vimos recatadas canadenses num rala-coxa de dar inveja a muita loira do Tchan. A gente observava de longe aquela coletiva dança do sanduíche no meio da pista ao som de um hip-hop pavoroso e lembrava do sex-appeal das dançarinas brasileiras. E querem saber? Na hora de apelar, as nossas castas moças poderiam até fazer um estágio com as canadenses. Dança da garrafa, aqui, é coisa de criança.
Não ficamos até o final da noite, mas pudemos ver duas distintas canadenses seminuas, exibindo seus corpos de Schwarzenegger em cima de uma mesa estrategicamente posicionada em frente à pista de dança. No dia seguinte, nos contaram que logo depois que fomos embora, dois sujeitos contratados pela casa subiram na mesa e auxiliaram as moças em suas performances, digamos assim, de encenação artística.
Sabe o que é mais curioso? É que não estávamos em qualquer biboca, não. A gente estava em uma danceteria cara, como qualquer uma da Vila Olímpia, onde a playboyzada cata as mina em São Paulo. Tá, pode até rolar esse tipo de coisa por aí, mas pelo o que nos disseram, isso é regra por aqui. De dia, eles mal se olham nas ruas. À noite, fazem dança do sanduíche. E depois, são as brasileiras que levam a má fama...

sábado, março 26, 2005


Nesta Sexta-feira Santa, passeamos no Harbourfront à beira do Lago Ontario. Tava um dia bonito, com os termômetros a 5 graus durante a tarde. Andamos bastante com nossos amigos Sérgio e Júlia (autores desta foto) pela cidade e terminamos a noite num pub chamado Pauper's, na Bloor. Sérgio e Julia: adoramos conhecer vocês! Posted by Hello

quinta-feira, março 24, 2005

A prova da bebedeira

A gente só bebeu um copo, eu juro!
Nós realmente tomamos cerveja verde! Nossos classmates Julia e Sergio nos mandaram as fotos da comemoração do dia de "São Patrício" (St. Patrick, o padroeiro da Irlanda), no James Joyce Pub, na última quinta, dia 17. Foi uma noite bem legal e as fotos - que ficaram ótimas - provam isso. Confiram o álbum!

quarta-feira, março 23, 2005


Nevou um pouco hoje à tarde aqui em Toronto. Aproveitamos o dia para tirar fotos perto de casa. Vejam mais AQUI Posted by Hello

O doido varrido de Toronto

Toda cidade grande tem gente doida pelas ruas. Em São Paulo, por exemplo, é possível encontrar uma fauna enorme, especialmente no centro. Uns falam sozinhos, outros pregam contra o capeta e tem ainda aqueles que dançam ou fazem acrobacias no meio da rua.
Toronto não é diferente, claro. Mas tem um cara aqui que, até agora, está no topo do nosso ranking de lunáticos. Não é brincadeira: o sujeito anda sem camisa pelas ruas, num frio de -10, -15ºC, usando apenas botas, bermuda, um chapéu de Papai Noel e um cigarro pendurado na boca. De repente, ele começa a berrar "Merry Christmas, Merry Christmas", deita no chão e começa a fazer flexões de braço. Quer mais? Ele anda por aí empurrando um carrinho de bebê com um urso de pelúcia dentro.
Blogueiros de Toronto: se vocês souberem quem é esse insano, por favor, conte para a gente.
Aos nossos amigos do Brasil: vocês conhecem por aí algum outro lunático que supere o nosso Papai Noel despido?

terça-feira, março 22, 2005


É PRIMAVERA!!!!!
A primavera começou ontem por aqui. Para comemorar, nós tiramos uma foto em frente ao prédio onde moramos às 8h36, quando estávamos indo para a escola. Como vocês podem ver, registramos uma imagem bastante primaveril, ehehehehehe.
Bom, hoje a neve já derreteu e está cada vez mais calor. Agora à tarde, por exemplo, fez 5 graus. Calorzão!!! Posted by Hello

Música na cabeça

Sabe quando uma música não sai da cabeça? Pois é, o Chico não pára de cantar na minha orelha...

Iracema voou
Para a América
Leva roupa de lã
E anda lépida
Vê um filme de quando em vez
Não domina o idioma inglês
Lava chão
numa casa de chá
Tem saído ao luar
Com um mímico
Ambiciona estudar
Canto lírico
Não dá mole pra polícia
Se puder, vai ficando por lá
Tem saudade do Ceará
Mas não muita
Uns dias, afoita
Me liga a cobrar
É Iracema da América

domingo, março 20, 2005

Nada como Ferroviária x Bangu

Esses caras estão varrendo o gelo, sim
Varrer gelo é esporte aqui no Canadá! Foto: reprodução da TV :-)

No Brasil, a discussão entre amantes de esporte e aqueles que odeiam qualquer coisa do gênero se resume geralmente a futebol. Conhecemos algumas pessoas que vêem o Paulista de Basquete feminino ou Desafio de Vôlei de Praia 4x4, coisas assim. Bom, eu já vi coisas assim e às vezes entendo a estranheza de quem não gosta de sentar na frente da TV para assistir algo deste tipo. Mas os esportes populares aqui no Canadá são incrivelmente mais insanos e entediantes que as coisas que eu citei antes.

Sexta à noite é dia de esporte ao vivo em um dos muitos canais que temos aqui. Há duas semanas, vimos um fantástico jogo de curling entre Manitoba e Alberta (duas províncias canadenses). Ginásio lotado, público vibrando. Sabem o que é isso? Uma espécie de bocha sobre o gelo em que dois tiozinhos ficam varrendo (literalmente) a pista para que umas peças redondas de metal deslizem até um alvo. Sei lá, é mais ou menos isso, não entendi a regra.

Ontem, por outro lado, vimos um jogaço de lacrosse - esporte aparentemente inventado aqui e muito popular nas universidades. São uns dez carinhas com redes na ponta de um cabo jogando uma bolinha um pro outro e tentando marcar um gol. É tipo um hóquei-sem-patins-sobre-grama-sintética-com-rede-de-limpar-piscina, segundo um conceito que eu e a Marta desenvolvemos depois de 3 minutos de perplexidade diante da TV. Ginásio lotado, público vibrando. Dá até saudade de um Ferroviária x Bangu, pela 3ª divisão do Brasileiro.

sábado, março 19, 2005


Nós amamos No Name!
Os supermercados aqui do Canadá tiveram uma grande idéia: criar uma linha completa de produtos com marca genérica para vender barato. O nome da marca? "Sem Nome" (No Name ou Sans Nom em francês). Para quem chega do Brasil e se assusta com o preço das coisas, é uma saída excelente. Vejam a foto: tem mussarela, papel alumínio, hamburguer, saco de lixo, tempero, legumes congelados e muito mais. Tudo bem mais barato que os produtos de marca. Não sabemos como eles conseguem isso (já duvidamos da qualidade da coisas que estamos comprando ou até pensamos que eles podem estar pondo crianças filipinas para trabalhar em fábricas insalubres, mas ainda não descobrimos nada). Por isso, viramos fãs do No Name. Posted by Hello


Nós e nossos "roommates" Alê e Dani depois do vinho de sexta (com nossa câmera nova!). Posted by Hello

Semana com amigos e cerveja verde

Depois de cinco dias de sumiço, estamos de volta ao blog. Foi uma semana cheia de novidades, aulas, homework e longos papos com amigos queridos.
Vou tentar fazer uma mini retrospectiva em três partes:

Parte I : chocolate quente
Na última terça, dia 15, finalmente tomamos um chocolate quente com a Lucia e o Sergio (o marido dela) no Second Cup do Eaton Centre. Como foi legal! Conversamos longamente sobre a nova vida deles no Canadá depois de um período em Boston e sobre as nossas primeiras experiências por aqui. Contamos nossas impressões, ouvimos as história deles e rimos dos nossos "causos" entre um gole e outro. Saímos de lá com a sensação gostosa depois de um papo com amigos e a vontade de repetir esses encontros.

Parte II: trevo no rosto
Na quinta, dia 17, comemoramos o Saint Patrick Day, o dia do santo padroeiro da Irlanda, num pub irlandês chamado James Joyce. Aqui é tradição festejar essa data porque a comunidade irlandesa é bem grande no Canadá. Para celebrar a data, eles fazem uma parada na rua e bebem muito, é claro. Por isso, lá fomos nós, com três amigos da escola: a Elizabeth (de Caraguatatuba) e o casal Sérgio e Júlia (do Rio). Na entrada, já adoramos a música irlandesa tocada por um grupo em um pequeno palco. Em volta da gente, muitos bêbados felizes vestiam roupas e chapéus verdes (a cor que simboliza a Irlanda). No rosto deles, havia trevos em adesivos ou pintados na pele. Claro que até o final da noite, já estávamos devidamente caracterizados e levemente bêbados, sacudindo a caneca de cerveja com corante verde ao som de música irlandesa. E quer saber o mais legal? Nós, cinco brasileiros, estávamos falando em inglês o tempo todo. Ah, se dessem cerveja para os coreanos na escola...
Quando saímos do pub, fomos ao Tim Hortons (uma coffee shop) e encontramos a Dani Noyori lá. Que delícia que é encontrar a Dani! Tomamos um chocolate, conversamos bastante e combinamos um novo encontro, dessa vez com mais calma.

Parte III: final feliz
Nesta sexta, dia 18, começamos o dia perdendo a primeira aula (que vergonha, dormimos demais), mas depois as coisas deram certo. O Martim tirou 9,0 na apresentação dele na escola e a professora dele sugeriu que eu mudasse de classe para o mais avançado. Fiquei contente, afinal de contas, é a opinião de uma professora.
À tarde, fomos à York University (que é lá na P.Q.P.) para eu me inscrever numa prova de espanhol. Quando chegamos lá, o escritório já estava fechado. Para piorar, comemos um lanche horroroso no Subway que nos deixou com azia e enjôo. Mas, mais uma vez, as coisas voltaram a dar certo depois. Quando chegamos em casa, vimos que a UPS finalmente entregou a nossa câmera digital. Ela é lindinha, minúscula e, sobretudo, barata. E assim, terminamos a noite estreando e câmera com a Dani e o Alê (nossos roommates) e tomando vinho chileno em um longo e gostoso papo. Fiquei com uma musiquinha da Luciana Melo na cabeça: hoje eu só quero que o dia termine bem, hoje eu só quero que o dia termine muito bem...
Deu certo: a semana terminou muito bem!!!

domingo, março 13, 2005


Nossa despedida
Nossas famílias reunidas no aeroporto no dia 26 de fevereiro.
Lá atrás: Gé, Elói, eu, Martim, Cida, Gera e Meire.
Na frente: minha mãe, d. Iara e meu pai com a netinha Carol. Só faltou o Raul, o autor da foto. Posted by Hello


Martim e Elói em uma das fotos mais bonitas da história Posted by Hello


Tchau, Carol, até a volta! Posted by Hello


Tá bom, tá bom, eu sou uma boba mesmo... Posted by Hello

Chão fofo e cães que miam

Não, esse título não é uma alucinação. É só um resumo das coisas que vimos neste sábado, dia 12, aniversário da Dorô (Cida, mande parabéns para ela por nós). Bom, primeiro vimos três cachorrinhos no metrô que latiam como gatos. Eles estavam sem coleira, usavam apenas uns chocalhos ridículos no pescoço. Dentro do trem, o dono deles brincava de arremessar uma bolinha de papel pelo chão. E lá iam os três, miando e sacudindo o chocalho, atrás da bolinha. O vagão, claro, virou uma festa! Todo mundo abriu um sorriso e até brincou com os cachorrinhos. A diversão durou pouco, foi apenas o tempo entre as estações Dupont e St. Clair West. Mas foi tão bom!
Quando saímos do metrô, afundamos os pés no chão fofinho perto de casa. Hoje nevou bastante e quando voltamos do centro da cidade, as calçadas estavam branquinhas, branquinhas. O Martim não teve dúvidas, foi no montinho mais gordinho e afundou o pezão lá. Eu, bobona do jeito que sou, fiz a mesma coisa. Ficamos lá, sentindo a neve escorregar debaixo dos pés, olhando um para o outro com cara de bobo. A gente voltou para casa com os sapatos molhados, pinta de turista, felizes da vida! Tem dias que a gente só quer isso. Só quer a leveza e a certeza de que é feliz :-)

sábado, março 12, 2005

Mitos derrubados

Quando vamos a outro país (especialmente os de primeiro mundo), chegamos cheios de idéias pré-concebidas a base de conversas ouvidas de orelhada ou suposições que criamos depois de assistir programas de TV. Faz parte do processo. Mas também se inclui aí a derrubada de muitos mitos. Talvez sejam momentos de pequenos desapontamentos, mas o lado positivo e saudável disso é cair na real e dar às coisas (e aos países) suas devidas proporções.
Sobre o Canadá, derrubamos rapidamente a idéia de que aqui todo mundo respeita absolutamente todas as regras. Não, eles também param em lugar proibido, atravessam fora da faixa (e se xingam por isso), jogam (muito) papel no chão, especialmente jornais, no metrô. Como disse outro dia, também plantam maconha em grandes quantidades e matam policiais. Era uma idéia ingênua nossa de que aqui todos eram tão chatos que nem sequer tinham um jogo de cintura para fazer coisinhas erradas.
Mas claro, tem coisas que realmente funcionam em outra ordem de pensamento aqui. Fomos à biblioteca central hoje, por exemplo. É um prédio de 5, 6 andares com centenas de computadores, centenas de milhares de livros, salas para deficientes físicos, auditivos, visuais, centro de estudos, cursos gratuitos, acervo aberto. Simplesmente incrível. Um prédio desses, em São Paulo, só em faculdades pagas - e ele não seria dedicado inteiramente a uma biblioteca.
Na saída, um segurança controla se as pessoas não estão levando os livros embora da seguinte maneira: você abre sua mochila por um segundo, a dois metros de distância dele, e ele diz "ah, OK, pode ir", gentilmente. Eles não parecem esperar que alguém faça nada errado.

Medicina chinesa

Sumimos, mas voltamos. Dois dias em médicos diferentes, por causa dessa interminável sensação de gripe e cansaço. Bom, na verdade, o segundo médico entrou na história porque o primeiro foi estranhíssimo. Um tiozinho chinês (de Macau) que ficava a 50 minutos de metrô e tinha o consultório mais excêntrico que já vimos - numa estante, enfeites com borboletas, maquetes de joelhos, livros de medicina, pilhas de papel, ampolas, seringas. As fichas dos pacientes ficavam em caixas de papelão embaixo das quatro cadeiras da sala de espera e em toda a mesa da secretária. Além disso, terminada a consulta no cubículo ao lado, ele trazia os pacientes para a sala de espera, onde aplicava injeções e tirava sangue, enquanto conversava com quem ainda seria atendido.
Enfim, ele foi atencioso com a gente, receitou um antibiótico pra Marta e virou um pouco de xarope para tosse para mim em um frasco plástico (hmm, estranho...), que era para tomar só uma vez, à noite, porque me deixaria tonto. OK. Voltamos para casa, vimos o preço do remédio. C$ 135 (uns R$ 300). Aí, desistimos de acreditar na boa vontade do velhinho.
Fomos a uma clínica (dentro do "shopping" subterrâneo do centro da cidade) ontem, onde a médica falou para relaxarmos. Nada de antibiótico e afins. Em 3 ou 4 dias, ficaremos bem. Aquela velha história de "virose". Melhor assim.

sexta-feira, março 11, 2005

Eles não sabem se posicionar

Um comentário rápido é que os "torontenses" parecem ter um pouco de dificuldade de, digamos, se movimentar por lugares públicos. Notamos que estamos esbarrando muito nas pessoas. Elas vêm na nossa direção, desviam pros lados improváveis, levemente incomodadas com o fato de ter que tomar essa decisão súbita. Dentro dos vagões do metrô, elas se acumulam em frente às portas, sem saber para onde ir ou se segurar, enquanto os outros cantos e até alguns bancos ficam vazios. Isso faz com que todos entrem lentamente e saibam ainda menos o que fazer para conseguir tomar aquele trem. Outro dia, vimos um cara vindo numa cadeira de rodas na plataforma vazia, em direção a uma garota. Incrivelmente, ele se desviou dela, porque ela não ia para lado algum. Curioso.

terça-feira, março 08, 2005

Sensação térmica: -25ºC

Tá bom, tá bom... a gente também não aguenta mais falar do frio que faz aqui e das nossas primeiras impressões sobre a vida abaixo de zero. O problema é que esse é o nosso segundo tema favorito (o primeiro é, sem dúvida, inglês). Como nós mal saímos com tanto frio, dor de garganta e gripe, nos resta apenas contemplar a neve pela janela e ver na TV a previsão do tempo.
Todos os dias, a gente acorda com o canal The Weather Network anunciando temperaturas apocalípticas para estes pobres brasileiros recém-saídos dos 32ºC de São Paulo. Mas hoje foi insuperável: sensação térmica de -25ºC.
Quando saímos na rua, sentimos pela primeira vez nas nossas vidas o que são -25ºC no rosto. Para quem está aqui há muito tempo, deve ser fichinha, mas para a gente, doeu na pele. Eu, especialmente, que estou com dor de garganta, penei para chegar à estação de metrô. O pior é que olhávamos para os lados e víamos alguns canadenses sem touca, sem luvas e sem juízo, como se hoje fosse um dia qualquer. Bom, talvez para eles este foi apenas mais um dia "friozinho" de final de março, mas para a gente este 8 de março foi o primeiro really freezing day de nossa curta estadia aqui.
Por falar em 8 de março, parabéns a todas as mulheres que estão lendo este blog. De presente, eu ganhei bastante mimo do Martim. Ele me deu remedinho, marcou médico para mim e me fez bastante carinho. Que amorzinho :-)

segunda-feira, março 07, 2005

Previsão: chuva, neve, frio

Nunca imaginamos ver isso: chuva e neve ao mesmo tempo. Sabe-se lá por quê. Mas acontece aqui em Toronto (e provalvemente em todo lugar onde neva). Hoje, choveu muito, forte. Com os 3ºC que estava, imaginem a sensação da água espirrando na gente. De qualquer jeito, isso valeu por uma coisa: a neve que fica nas calçadas, acumulada da limpeza diária, se foi.
No parque aqui do lado de casa, até já dá para ver a terra e o que sobrou da grama em algumas partes, o que significa que, se não nevar muito mais (segundo as previsões, ainda neva até o fim de março, mas só um pouco), vamos conseguir ver outras cores que não o branco predominante.
Nos disseram que é perigoso andar pelo centro nesses dias, porque a chuva derrete a neve, mas uma camada fina de gelo se forma sobre a rua e as calçadas. Muitas daquelas videocassetadas acontecem nesse período.
Descobrimos também que qualquer temperatura acima de zero é uma maravilha...

domingo, março 06, 2005


Esta é a única foto que temos da nossa festa de despedida no dia 25 de fevereiro no Central das Artes. Logo depois que o Elói tirou essa foto, a bateria acabou. Ficou a frustração de não ter tirado mais fotos daquele encontro único. Mas ficou a lembrança de nossos amigos nos abraçando e desejando toda a sorte do mundo. Foi muito legal sentir isso. Beijos e abraços para todos vocês! Posted by Hello

Verdes!
Hoje conversamos com a Cida, o Gera e o Elói pelo Skype. Foi maravilhoso! Passamos 48 minutos falando sem parar. A gente ainda estava um pouco atrapalhado com a câmera e o microfone, mas foi legal ouvir vozes doces do Brasil. O curioso foi nos ver verdes pela webcam. A Bia perguntou pelo MSN se a gente já havia mofado com tanto frio, ehehehehe

sábado, março 05, 2005

Tartar sauce parte II

Acabamos de voltar de Chinatown. Lá, vimos o tamanho da comunidade de asiáticos por aqui. É impressionante! Ouvimos bastante inglês à la Tata Só e vimos as mesma lojas escuras da Santa Efigênia. A diferença é que eles emitem nota fiscal e, claro, cobram 15% de impostos.
Também conhecemos uma Galeria Pajé canadense com cheiro de comida chinesa, roupas de gosto de duvidoso e DVDs com chinesas peladas. Enfim, nos sentimos em casa!
Compramos um microfone, uma webcam e caixas de som para o computador. A primeira coisa que fizemos quando chegamos em casa foi instalar tudo e ligar para o Brasil. Ligamos para a casa do Martim, mas ninguém atendeu :-(
O legal foi que ligamos para meus pais e falamos com eles por preciosos 7 minutos! Foi maravilhoso ouvir a voz deles e saber as novidades. Viva o Skype!

sexta-feira, março 04, 2005

Tartar sauce

Toronto é uma cidade de imigrantes. Segundo nos disseram (mas não confirmamos), 3 em cada 5 moradores são ou tem pais estrangeiros. No metrô, parece até mais. São hispânicos, indianos, gregos, jamaicanos, guianenses, portugueses, brasileiros, chineses… Mas o que tem chamado nossa atenção mesmo são os coreanos. Eles são muitos, mas aqui não estão no esquema paulistano de Standcenter e Brás. Eles têm empregos em bancos, lojas de departamento, vivem vidas canadenses, longe de uma "comunidade coreana". Ao menos, é o que parece.
Na nossa escola, também, eles devem ser 90%. Em comum com os já estabelecidos no Canadá, eles têm o sotaque, naturalmente. E é muito, muito difícil entendê-los.
Fomos almoçar outro dia num fast food (chamado Vienna…), onde duas senhoras coreanas nos atenderam. “Beef or fish?”, perguntaram. Até aí tudo bem. Depois, nos sentimos naquelas propagandas recentes de escolas de inglês. “E de acompanhamento? Uó kainda só? Tata só? Gu fó fish!”. “Tata só”? Bom, melhor não pedir. Saimos com um prato sem graça, sem tempero. Até cair a ficha de que ela só estava oferecendo Tartar Sauce (molho tártaro). OK, nos entendemos e a comida desceu melhor.
A Marta passou por outra mais engraçada. Num exercício em dupla, na aula, a colega coreana perguntou o que ela pensava sobre “adoption” (adoção). A Marta, claro, disse que era uma coisa ótima. Na hora de relatar para a classe o resultado da pesquisa, a garota não teve dúvidas: “Marta loves abortion” (a Marta adora aborto). A classe parou, encarando aquela pessoa de opinião tão heterodoxa, para dizer o mínimo. A Marta se apressou para desfazer o mal-entendido e todos acabaram rindo. Não dava para fazer outra coisa.
Tem sido difícil de nos entendermos com eles. Mas o fato de Toronto ter tantos estrangeiros nos ajuda muito. Podemos falar português que ninguém liga (apesar de termos evitado ao máximo). Podemos cometer barbaridades no inglês que os canadenses reagem com naturalidade.
Uma (grande) barreira a menos na nossa adaptação.

Luto nacional

Um comentário rápido. Ontem, quatro policiais (da famosa Polícia Montada canadense) foram mortos enquanto tentavam desmontar uma esquema de produção de maconha numa fazenda na Columbia Britânica. O dono da fazenda plantava a droga em larga escala e, quando os guardas entraram, abriu fogo contra eles. Depois, se matou (ao que parece, ainda não sabem direito).
Hoje, foi luto nacional. O primeiro-ministro mandou fazerem um minuto de silêncio, as bandeiras foram hasteadas a meio mastro e os jornais todos manchetaram a morte dos quatro policiais. Os programas noticiosos e de debate na TV apenas discutem isso.
A Polícia Montada é um orgulho dos canadenses. Mas chama muito a nossa atenção a repercussão que uma história dessas tem aqui.

quinta-feira, março 03, 2005

Esperança e Céu Azul

Todas as manhãs, a gente se sente em South Park. Vestimos duas calças, dois pares de meias (de algodão e de lã), uma blusa de algodão, duas blusas de lã, um enorme casaco, cachecol, gorro e luvas. Como é nossa primeira semana, a gente acha isso tudo um saco!
- Primeiro porque dá um trabalho do cão. Só de pensar em vestir isso tudo, a gente se cansa.
- Segundo porque a gente passa calor em todos os lugares aquecidos e ficamos com frio na rua
- Terceiro: sempre estamos com as mesmas roupas. Como temos poucas (e boas) roupas de frio, acredito que, em breve, seremos conhecidos como o casal que nunca troca as roupas. Eu, pelo menos, me sinto o próprio Kenny! (oh my God, they killed Kenny!)
Mas hoje a gente decidiu inovar: compramos novas luvas por $ 7,99 o par. Ontem, uma moça do banco nos aconselhou a comprar um casaco bem quente para a gente não ter tanto trabalho para vestir e tirar tantas roupas quando mudamos de ambiente. O problema é que ainda não encontramos boas promoções por aí.

Curiosidade: ontem assistimos a uma novela da Globo em italiano. Era aquela chatinha do Benedito Ruy Barbosa chamada "Esperança". Vimos uma cena com o Raul Cortez, o Reinaldo Gianecchini e a bola da vez Priscila Fantin. Bom, pelo menos eles estavam falando italiano direito!

A boa notícia do dia é que vimos sol e céu azul hoje. O dia estava lindo. A neve sobre as casas e o azul intenso do céu faziam um contraste lindo. Até deu vontade de pular da cama às 7h e encarar o frio de -10ºC.

quarta-feira, março 02, 2005

Neve???

Vimos neve uma vez em nossas vidas. Fazia tanto tempo que tudo tinha voltado a parecer como aquela coisa de cinema: um cenário lindo, com luzes, as pessoas patinando no gelo, crianças montando bonecos... Bom, aqui, a coisa muda. Temos acordamos todos os dias com a TV no canal do tempo dando os detalhes climáticos. Pressão atmosférica, ponto de orvalho, tendência para os próximos dias, etc, etc. E previsão de neve: 10 a 15 cm hoje. 10 a 15 cm amanhã. Temperatura? -7º, com sensação térmica de -13º. Quem já viveu isso, vai achar que este é um comentário de novatos, obviamente. OK. Mas é muito, muito estranho acordar e ter dificuldade de andar 200m, de casa até o metrô, por causa do frio nos ouvidos e narinas e da neve nas calçadas ou que vem caindo há 2 dias.
Estamos bem, mas o frio é muito intenso, é muito presente em tudo. Não conhecemos Toronto ainda, exceções feitas ao metrô, ao supermercado e à escola. Mas do 8º andar do prédio onde estudamos, podemos ver os telhados, ruas e parques nas redondezas, sob um tapete branco. Visto de trás de uma janela de vidro duplo, é muito bonito.

terça-feira, março 01, 2005

Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera...

É difícil definir como foram os nossos últimos dias no Brasil. Foram dias de correria, poucas horas de sono, caixas de papelão pela casa, caminhão de mudanças, telefonemas e coração apertado. Em alguns momentos, não sabíamos nem por onde começar. Era muita coisa sim e a gente sabia disso.
Mas agora, olhando para trás, ficou um gostinho de satisfação. Vivemos intensamente esses tumultuados dias, recebendo provas de carinho. A gente só queria agradecer a todos pelos abraços, beijos, recados, e-mails e olhares ternos que recebemos nos últimos dias. Foi uma delícia rever tanta gente que adoramos na nossa festa (60 pessoas!!!) e saber que nossas famílias e amigos realmente estão torcendo por nós.

Obrigado(a) mesmo!!!!!

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Do alto, o Canadá parecia uma enorme colcha branca de retalhos. Da porta do aeroporto, parecia a seção de congelados do supermercado numa versão piorada. Quando chegamos à calçada com nossas malas e sentimos -6ºC no rosto, decidimos voltar para o aquecimento do aeroporto. Vestimos mais roupas de lã no banheiro e caminhamos, destemidos, para o táxi. Depois de um overbooking, 10 horas de vôo, escala em Atlanta por três horas e mais duas horas dentro de um avião, o que eram míseros -6ºC?
Atravessamos a cidade branca, empurramos nossas malas na neve e chegamos ao nosso novo lar na Eglinton Ave West. Conhecemos o Alê e a Dani Scur, que nos receberam super bem. Depois, abraçamos a Dani Noyori (que delícia que foi nosso reencontro) na sala do apê.

Agora, estamos nos acostumando com a vida em Toronto. Aprendemos a diferenciar as moedas, a decifrar o supermercado, a entender a linha de metrô e a viver com as roupas brancas de neve. É gostoso aprender tudo de novo!