terça-feira, agosto 29, 2006

Retrospectiva 2: Montreal


A Velha Montreal é um bom exemplo do charme europeu da cidade. Mais fotos aqui



No Canadá, ouvimos que os torontenses preferem se mudar para Montreal quando se aposentam. Não é para menos, parece que todos têm simpatia por esta cidade cosmopolita, vibrante, linda, histórica, moderna, que respira cultura. Ouvimos piadinhas no lado anglófono deixando a província de Québec à vontade para se separar do país, desde que deixe Montreal no lado canadense.

Fomos duas vezes para lá, em maio de 2005 e em fevereiro de 2006, pegamos primavera e inverno e muito, muito frio. Mas nas duas vezes, nos apaixonamos pela cidade. Mesmo com -20ºC absolutos (mais o vento...), mesmo com metro e meio de neve, Montreal tem vida pelas ruas. Tem movimento na boulangeries, nos bistrôs, nos cafés. Tem sorriso no rosto na pessoas. Os franco-canadenses, que formam pouco mais de 50% da propulação da segunda metrópole canadense, se abrem mais. São mais amistosos e calorosos também.

E a cidade é linda. O centro histórico, uma grande área às margens do enorme rio São Lourenço, é forrado de prédios do século 18 e 19, muito bem preservados, com muitos museus na área celebrando as transformações que a passagem dos séculos causou na paisagem urbana. Montreal tem grandes centros culturais, recebe festivais internacionais de música (como o famosíssimo evento de jazz, em julho), teatro, cinema, dança e arte. A cidade tem parques por todos os lados, como não podia deixar de ser no Canadá, e, no verão, segundo nos disseram, ferve com o calor e de vibração.

Tem gente vinda de todas as partes do mundo por ali, mas o tipo de imigrantes que se vê é diferente dos de Toronto. Saem os paquistaneses e chineses e entram os africanos falantes de francês (argelinos, marroquinos, camaroneses). E a mistura com os residentes franceses e ingleses só ajuda a engrossar o caldo. Aliás, come-se bem, barato e variado, Jantamos comida salvadorenha num dia e tailandesa no outro. Um grupo de amigos nossos sai toda semana para comer em algum restaurante étnico - as opções são muitas: caribenhos, africanos, árabes, indianos, judaicos. E dizem que a noite lá também é imperdível.

Nos disseram que Montreal é mais "pobre" que Toronto, mais carente de serviços. Ela é levemente mais suja e desorganizada. E visivelmente mais viva. É certamente essa característica de ter sido eternamente mesclada que torna a cidade interessante demais. Por isso, qualquer pergunta sobre ela recebe de nós uma resposta suspeita. Somos fãs.

Ponto forte: a possibilidade de comer bem, a vibração da cidade e o calor humano mesmo com uma temperatura média 5 graus mais baixa que Toronto.

Ponto fraco: para quem veio de Toronto, é bom tomar cuidado na hora de atravessar a rua, porque nem sempre os motoristas dão preferência para o pedestre.

Bola fora: Parque Jean Drapeau no inverno. Não vá, nem que estejam distribuindo dinheiro. O frio é de doer.

Você não pode perder: o Quartier Latin, bairro estudantil, cheio de cinemas, restaurantes, livrarias, a Universidade de Québec em Montreal e a embasbacante Biblioteca Nacional.

Você pode dispensar: o Insectarium, a não ser que você ame insetos ou seja biólogo.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Retrospectiva 1: Toronto


Allen Gardens, no centro da cidade: retrato da vida feliz dos torontenses. Mais fotos aqui



Vamos começar a retrospectiva por Toronto, a maior cidade do Canadá, com aproximadamente 3,5 milhões de pessoas. É comum ouvir dos canadenses que Toronto é poluída, caótica e estressante. Deus, perdoai essa gente! Eles realmente não sabem o que dizem, principalmente se a origem dos interlocutores desse diálogo é brasileira.

Para quem vem de São Paulo ou de outra metrópole do Brasil, Toronto vai parecer bucólica. Estamos falando de um centro urbano bonito, arborizado e ordenado. Há parques por todos os lados, casas com jardins, um lago imenso (o Ontario) e ciclistas em número considerável (exceto no inverno, é claro). É comum se deparar com esquilos, guaxinins e até gambás pelas ruas e praças, além de cachorros felizes passeando com seus donos.

As ruas, em geral, são bem pavimentadas, o trânsito está longe de ser o horror de São Paulo e o transporte público funciona bem. Há poluição sim, como em qualquer metrópole, mas não é nada que incomode.

No verão, qualquer canto com grama e árvores fica concorrido. Nos breves lanches de almoço ou no fim de tarde, todo mundo aproveita as altas temperaturas para lagartear ao sol e ser feliz. Tudo fica mais colorido e agitado, há rodas de amigos nas portas das casas, churrascos nos quintais e festivais de tudo o que se possa imaginar pela cidade. Coisa de Hemisfério Norte, onde verão é um evento que deve ser vivido intensamente.

Entretanto, para quem está atrás de charme, boa arquitetura e História, sinto muito, mas Toronto decepciona. A grande explosão da cidade veio depois dos anos 50, tornando tudo muito recente, com ar de pré-fabricado. Aos apaixonados pela cidade, ficam aqui minhas desculpas, mas estou sendo sincera. Para mim, Toronto é politicamente correta, mas um pouco insossa. Talvez seja culpa da minha predileção pela Europa, não sei. Só sei que essa coisa de comunidades separadas em guetos, café em copo de papelão, sanduíche no almoço e compras no fim-de-semana simplesmente não é a minha, fazer o quê?

Ponto forte: organização, muito verde, qualidade de vida e índices de violência baixos (não acredite em canadenses que te disserem o contrário).

Ponto fraco: falta charme

Bola fora: A empresa de transportes, chamada TTC, que não está a altura da pujança de Toronto. A rede de metrô é pequena, os veículos são ultrapassados e os funcionários são, visivelmente, infelizes. O sistema funciona, mas merece ser modernizado.

Você não pode perder: As ilhas do Lago Ontario. A travessia é rápida e agradável e o passeio lá é lindo! Leve comidinhas para um piquenique e câmera para clicar a cidade como cartão postal.

Você pode dispensar: uma visita à CN Tower, a torre mais alta do mundo e marca da cidade. Se você não é fascinado por construções altas, vai achar pouco interessante. A vista é bacana, mas não vale o preço da entrada.

sábado, agosto 26, 2006

Mochileiros



Outro dia, ajeitando a casa, me deparei com as mochilas usadas incessantemente durante todo esse tempo fora do Brasil. Jogadas em plataforma de estação, arrastadas em pisos encardidos e socadas em bagageiros imundos, as pobrezinhas continuavam encantadoras. Nos bolsos frontais, elas ostentavam a nossa coleção de bandeiras dos países explorados, todas reluzentes e lindas.

Aos poucos, fui retirando os pins que perfuravam o tecido surrado das bolsas. Senti carinho e saudades. Não resisti. Peguei a câmera e tirei uma foto das nossas bandeirinhas, colocadas cuidadosamente sobre o sofá da sala. Foi aí que resolvi fazer uma retrospectiva desse tempo fora do Brasil. Um resuminho desses dias malucos vai fazer bem, tenho certeza!

sexta-feira, agosto 25, 2006

Aos trancos e barrancos (mas feliz)

Em um mês e meio no Brasil, não fizemos muita coisa, mas conquistamos uma respeitável lista de enfermidades: três gripes, uma caxumba, dores de garganta e crises de rinite alérgica. O mais incrível é que estamos comendo bem sim, senhor. Estamos nos esbaldando em feiras e sacolões e arrasando no cardápio natureba. O problema, meus caros, é outro.

"Acho que vocês chegaram no pior período em muitos anos", disse o otorrino que nos atendeu hoje. "A qualidade do ar está péssima, vocês só não sofreriam se tivessem vindo da Cidade do México."

Fiquei pensando no incrível poder de adaptação do nosso organismo. De repente, meu corpo muda e não aceita as condições do meu próprio país. Eu, que vivi 28 anos aqui, agora me sinto uma gringa que estranha tudo. Sei que muita gente que não pôs os pezinhos pra fora de São Paulo também anda sofrendo com o ar seco e a poluição, mas acho que o impacto disso tem sido desproporcional para esses dois ex-viajantes.

Também pesa o fator emocional nessa história toda, mas isso rende muita lamúria, o que torna este blog um pé no saco, então falemos de outras coisas.

Inverno tropical

Quando estava em Toronto, jurei que nunca mais reclamaria do frio em São Paulo, mas chegando aqui, mudei de idéia. Voltando ao tema "adaptação do organismo", vi que a gente se acostuma rapidamente com a média de temperatura local e, de repente, se vê encolhido em São Paulo com a ridícula temperatura de 12 graus. Quando vejo as pessoas passeando de cachecol pelas ruas, penso nos canadenses que andariam, tranquilamente, de camiseta. Fico no meio termo. Não vejo necessidade alguma de usar cachecol, mas também não ando de manga curta com aquele ventinho à noite.

É tudo muito esquisito, acho que ainda vai demorar para essas comparações se dissiparem da minha mente.

Vida de Amélia

Como as comparações são inevitáveis, aqui vai mais uma. A vida de Amélia aqui no Brasil é muito mais ativa. Em São Paulo, um dos motivos é a poluição, que deixa tudo coberto por uma camada de pó em um ou dois dias. Em Toronto, uma cidade também relativamente poluída, as janelas passam a maior parte do tempo fechadas (isso quando abrem), impossibilitando a entrada da fuligem.

Outra diferença é a história de passar roupa, essa tortura para qualquer coitado que preza o seu tempo. No Canadá, nossas roupas saíam miraculosamente desamassadas da secadora, tornando o ferro de passar um badulaque inútil no armário. Já aqui, não tem jeito! Até lençol vira uva-passa! E vocês pensam que a gente passa lençol? A gente não passa nem calça, meus caros, não estranhem nosso aspecto de quem acaba de sair da cama.

Os dois exemplos citados acima são bem simples, mas explicam o porquê de se passar tanto tempo em tarefas domésticas absolutamente detestáveis. Mas há algo que pesa ainda mais nessa amelice brasileira: herança colonial. Nada muito racional explica todo o esmero de uma brasileira para cuidar da casa. Não entendo pra quê uma criatura gasta tempo dando brilho no chão e nas panelas. Não sei por que os vidros TÊM de estar impecáveis e a casa, com cheiro de desinfetante o tempo todo. Isso só era justificável em residências de nobres que usavam escravos para esse trabalhinho morfético, mas esse traço ficou em todos nós sabe Deus por que. Como o custo da mão-de-obra no Brasil continua risível, as pessoas ainda se dão o luxo de reclamar do cantinho com marcas de dedos na cristaleira. Cá entre nós, esse capricho todo é uma insanidade! Não precisa chegar ao ponto do Canadá, onde, em muitos lugares, não é possível enxergar através do vidro, mas pirar com manchinhas é demais. Dá licença que eu tenho mais o que fazer!

segunda-feira, agosto 21, 2006

Perda

Há um ano e meio, aproximadamente, uma garota adorável me mandou um email, pedindo dicas de onde estudar no Canadá. Na época, eu era uma estudante ainda um pouco atordoada com Toronto e ela, uma jornalista com vontade de largar tudo e se arriscar no exterior.

Escrevi um longo email e repeti o que havia dito na nossa última conversa numa festa. "Tô te esperando, viu?"

Ontem à noite, o corpo dela foi velado. Elaine foi vítima dos efeitos devastadores da leucemia. Em pouco mais de um ano, tudo virou de cabeça pa baixo na vida dela e das pessoas que a amavam.

Enquanto eu hesitava em me mover naquela sala cheia de gente durante o velório, pensava na nossa última conversa. Pensava no quanto ela gostaria de ter tido a chance de viver mais e realizar alguns sonhos. No quanto ela gostaria de ter vivido mais um dia simples e rotineiro como hoje.

Longe de mim querer soar como aqueles arquivos de powerpoint toscos que a gente recebe por email com fotos de calendário de açougue e mensagens chatas de auto-ajuda. Mas, por favor, não se esqueçam do valor da vida e que não dá para perder tempo só por causa do medo de mudar. A Elaine quis arriscar. E é por essa e por outras que ela ficou no meu coração como exemplo de força e coragem.

sábado, agosto 19, 2006

Mais ternura neste blog

É possível não ficar coruja? É possível não ter um ataque histérico?


Ana Carolina, segurando o Arthurzinho, na foto com exatamente 1 semana. Lindos!


Meu irmão Gé e seus filhos lindos: Patrícia, Fernando e Maurício


Paty derretendo corações de vestidinho natalino e cachorrinho nas mãos

domingo, agosto 13, 2006

A vida é bela!

Mais um momento de felicidade. Na verdade, ele é A Felicidade da família, uma figurinha adorável de 3 kg e 48 cm de comprimento...


Este é o Arthur, nosso sobrinho e afilhadinho amado, que nasceu no dia da independência da Bolívia, para alegria da família


Meire, meu irmão Raul e os avós babando pela Ana Carolina e pelo Arthur


Martim, arrasando na pose de tio e padrinho


Esta é a nossa homenagem ao Dia dos Pais, que é comemorado hoje no Brasil. Aos responsáveis pela assustadora explosão demográfica entre nossos amigos, um feliz dia!

sexta-feira, agosto 11, 2006

"Nóis vai tocar o terror"

Não passava de um fedelho de 16 anos, mas como metia medo! Boné torto, marmita de alumínio nas mãos, bermuda larga e pêlos pubianos à mostra.

- Ô tia, cê viu no jornal? Quinze mil tão saindo hoje para o Dia dos Pais. Eu também saí lá da colônia. Agora é nóis, viu, tia? Nóis vai tocar o terror!

Eram umas 15 pessoas no ponto de ônibus da Praça da República. Todas engoliram seco com a ameaça do adolescente, inclusive a "tia" que estava em pé à espera do Parque Continental por volta das 15h desta sexta.

- E o pior é que ele tá certo, ela sussurrou para outro usuário do transporte público de São Paulo.

Quero acreditar que o comentário desse infeliz não passa de exibicionismo de ladrãozinho de quinta. Enquanto o moleque devorava a quentinha de arroz com carne moída sentado ao meu lado, umas 10 motos da Polícia Militar estacionadas em frente a um bingo atrapalhavam a chegada dos ônibus. Motivo? O estabelecimento havia acabado de ser assaltado.

Chega de lamúrias

Ok, pessoal, vou tentar fingir que está tudo bem e falar das duas coisas boas da ida ao centro da cidade. Primeiro: o Passa Rápido. Motoristas, podem me xingar, mas, para mim, o corredor de ônibus na Rebouças é uma benção. Deixo o carro na garagem com prazer. E se um dia, inaugurarem uma ciclovia, aposento meu Bilhete Único.

A segunda delícia desta sexta foi a coxinha do Café Girondino. Sequinha, bem-temperada e com massa saborosa, essa bomba de calorias estava nos nossos sonhos desde os tempos de comida insossa no Canadá. Aos poucos estamos matando saudades das melhores porcarias gastronômicas. Já atacamos o pastel de feira e a próxima tranqueira será o churros de Santos.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Fim do silêncio

Ao som de Piazzolla, finalmente dou sinal de vida depois de semanas de silêncio. Nada mais apropriado para a trilha sonora deste momento. Nossa readaptação por aqui não tem nada de samba feliz. Tudo tem sido um tango, como na cena da corrida desesperada de Ariel no filme "O Abraço Partido".

Hoje, conversando com minha irmãzinha Raquel, ela tentava me acalmar, citando exemplos de amigos que ficaram "diferentes" depois da vida fora do Brasil. É verdade, a gente fica esquisito, às vezes me pergunto se fui abduzida por ETs num disco-voador. Não vejo mais a mesma Marta, nem vejo o mesmo Brasil.

Sei que isso parece assustador, mas acho que é a melhor maneira de explicar o que eu e talvez muitos dos seus amigos "esquisitos" sentem ao pisar novamente por aqui. O olhar fica perdido, a conversa fica em tópicos e o silêncio faz uma força enorme para aparecer. Eu driblo, driblo e driblo, mas não há como negar: às vezes há um estranhamento no ar.

É difícil admitir isso tudo que estou contando. É doloroso perceber que você é uma peça desencaixada, desnorteada, sem saber até mesmo se quer se encaixar novamente. Por outro lado, estar fora da engrenagem é uma chance magnífica de enxergar as coisas de uma perspectiva, nem sempre nova, mas que causa até graça. As bobagens de classe média são as minhas favoritas. O exército de deslumbrados que faz pose em centro de compras e finge não estar em um país de Terceiro Mundo é de rolar de rir. Parece que todos saíram de uma novela do Manoel Carlos, onde todo mundo é rico e mora na Zona Sul. É essa gente que paga R$ 500 numa calça, mas chia para dar um aumento ridículo para a diarista que recebe salário-mínimo. É essa pequenez de vilã caolha de novela mexicana que me causa gargalhadas em momentos de bom-humor e ódio profundo nos piores dias.

Na verdade, nenhuma dessas impressões é nova, só ficaram mais reforçadas e isso me preocupa. Não quero ficar excessivamente crítica, mas confesso que essa tarefa não tem sido fácil. Há aberrações por todos os lados, especialmente aqueles que se fecham na tarefa diária de olhar para o próprio umbigo. "Ai, amiga, vou comprar um sapato novo e fingir que nada está acontecendo. Eleições? Crianças de rua? Buraco no asfalto? Ah, isso não é problema meu."

Amigos queridos, me desculpem pela aspereza deste post e pelo olhar distante de vez em quando. Ainda vou me curar, quem sabe um dia eu até ache São Paulo uma cidade bonita.