Retrospectiva 12: Polônia

O lindo mercado central de Cracóvia Mais fotos aqui
Quando começamos a sonhar com a nossa viagem, pensamos num tour completo pelo leste europeu. Nosso ponto de partida seria a Eslovênia, depois de passar pela França e Itália. Os dois espertos aqui só se esqueceram de um detalhezinho irrelevante: o inverno. Pelos nossos planos, chegaríamos a Liubliana no final de fevereiro, quando a temperatura nos países daquela região está longe de ser agradável.
Mudamos radicalmente o nosso roteiro. Da Itália, partimos para a Grécia, ainda com a vontade de passar, pelo menos, pela Hungria e República Tcheca ao final de nossa viagem. Meses depois, partíamos rumo à sonhada região. Seriam apenas três países, começando pela Polônia.
Não conhecíamos ninguém que havia ido para lá, não tínhamos idéia do que veríamos, nem sabíamos o que esperar dos poloneses. Para quem não sabe, a fama deles na Europa não é grande coisa. Isto porque eles invadiram os setores de serviços (leia-se subempregos) de países ricos depois da entrada do país no bloco econômico. Como nem todos foram absorvidos pelo mercado, viraram clichê em discussões sobre problemas sociais.
Com tantas referências negativas na cabeça, chegamos a Cracóvia prontos para dar uma voadora no primeiro folgado que aparecesse. Grande erro! Nos primeiros minutos em solo polonês começamos a nos desarmar. As pessoas eram solícitas e se esforçavam muito para nos ajudar com uma mistura de polonês, meia dúzia de palavras em inglês e risadinha constrangida.
Depois de um ônibus, um bonde e muita mímica, chegamos ao bairro do nosso albergue. Era mais de meia-noite e naquela rua só estávamos nós, as pesadas mochilas e um homem que parecia voltar do trabalho. "Com licença, você pode nos ajudar?" Ele não falava inglês e fez expressão de dúvida quando viu na nossa caderneta o nome da rua que procurávamos. "Berka Joselewicza, Berka Joselewicza..." Começou dar passos hesitantes e fez um gesto com as mãos para que o acompanhássemos.
Não sei quanto tempo durou aquela caminhada. Vinte minutos? Meia hora? O que sei é que de medo, passei para gratidão. Fiquei me perguntando quantas pessoas mudariam seus caminhos para ajudar forasteiros que não falam uma palavra sequer da língua local. Graças à generosidade dele, chegamos ao número 23 de uma rua que terminava no número 21. É que o 23 ficava no pátio de uma fábrica e só descobrimos isso graças a uma conversa do nosso santo protetor polonês e o vigia de um depósito.
O albergue onde nos hospedamos, chamado Goodbye Lenin, ficava em Kazimierz, um bairro judaico que é uma das atrações da cidade. Para quem gosta de História, o lugar é hipnótico. As paredes descascadas e edifícios antigos remetem a imagens marcantes do século 20 e despertam uma mórbida atração pelos resquícios deixados pelo Socialismo e pela Segunda Guerra.
Felizmente o magnetismo por Cracóvia vai além da política e das cicatrizes. A lindíssima praça Rynek Starego Miasta, localizada no centro da Cidade Velha (Stare Miasto) é um dos muitos exemplos de beleza arquitetônica. Reduzidos a escombros ao fim da Segunda Guerra, os prédios do local foram meticulosamente reconstruídos e voltaram a adornar a agitada região de restaurantes, bares, mesas ao ar livre, galerias de arte e lojas de artesanato. Lá também fica a imperdível igreja de Santa Maria (Kosciól Mariacki), uma das mais impressionantes que já vimos.
Outra atração de encher os olhos é a Mina de Sal de Wieliczka, a poucos quilômetros de Cracóvia. O local de 700 anos de história é patrimônio mundial da Humanidade e atrai visitantes há muito tempo. Nicolau Copérnico, Goethe, Alexander von Humboldt e o Papa João Paulo II foram alguns dos que já passaram por lá. O destaque da visita é a capela de Santa Cunegunda, com suas perfeitas esculturas de sal e suntuosas instalações para festas dentro de uma mina de 327 metros de profundidade e túneis de 300 quilômetros de extensão.
Ficou muito por descobrir naquele intrigante país, mas o mais importante a gente sentiu. Estereótipos são perigosos, podem cegar. Sorte que não abrimos mão da Polônia, um país receptivo e agradável. Bendita intuição!
Pontos fortes: a receptividade, a preservação da História, a beleza arquitetônica, a comida simples e saborosa e os preços acessíveis
Pontos fracos: a infraestrutura turística, que ainda engatinha. Faltam sinalização e atendentes que falem inglês.
Bola fora: ir à tarde para Auschwitz e tentar visitar tudo. É tão grande, mas tão grande que simplesmente não dá tempo. Vá pela manhã para ter o tempo que o lugar merece.
Você não pode perder: a Mina de Sal de Wieliczka, a Cidade Velha (Stare Miasto), o castelo e igreja de Santa Maria. Não deixe de ir a Auschwitz que, apesar de tristíssimo, é necessário. Por coincidência, a gente ainda teve a chance de conversar com um sobrevivente daquele campo de concentração. Inesquecível!
Você pode dispensar: uma ida ao banco para trocar traveller check. As filas são intermináveis, a eficiência é de INSS e não é fácil achar alguém que fale inglês para confirmar se aquela agência aceita esse tipo de transação. Apele para uma casa de câmbio, será menos insalubre.

4 Comments:
Só vcs 2 para irem num lugar pouco "comercial" como o leste europeu. Devido a distância, idioma, etc...
A impressão que a gente tem, pelo menos a que eu tinha, é a de um filme chamado "Albergue" onde perversos moradores deste lugar ficam esperando turistas inocentes, para vendê-los a sádicas pessoas que os torturam até a morte.
Pat
Não conheço esse filme, mas conheço um de roteiro parecido. Vai estrear semana que vem nos EUA e se chama "Turistas". Adivinhe onde se passa...
Beijos
Oi, Marta.
Já fui para a Polônia 2x, uma para estudar e outra para passear. Poloneses já ganharam prêmios nobéis de literatura, ciências, têm grandes cineastas (Wajda, Kielowski) e formam um dos países mais fabulosos do mundo.
Considero uma visão preconceituosa e "colonizada" ver a "Europa do Oeste" como um lugar superior. Geograficamente, aliás, a Polônia está no centro da Europa e não no Leste.
A Polônia de Chopin e Copérico é um lindo país!
Felipe
Concordo com você, a Polônia é um país formidável, foi um dos melhores lugares por onde passamos.
Quanto ao termo "leste europeu", concordo que ele seja discutível. Na verdade, não há consenso sobre isso. O fato é que se trata um termo consagrado, bastante utilizado para designar os países separados pela cortina de ferro e isso não implica em preconceito, não neste blog.
Muitos termos relativos a nacionalidade ou região são questionáveis. O que dizer de "americano" para nascidos nos EUA? E brasileiro chamando de "latino" os nascidos em países hispânicos na América?
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