terça-feira, maio 31, 2005

Bando de nó cego

Eu já sei como ficar rica em Toronto. Vou lançar uma linha especial para pedestres de mochilas e bonés com setas eletrônicas. Basta acionar a engenhoca quando quiser virar para algum lado na calçada. Seria ótimo pois assim as pessoas parariam de esbarrar umas nas outras enquanto caminham. Com isso, muitos acidentes seriam evitados e as expressões "excuse me" ou "sorry" deixariam de ser faladas com ódio.
Agora é sério: nunca vi tanta falta de noção de espaço entre pedestres. Falta jogo de cintura para esse povo, literalmente.

Doçura latino-americana
No sábado, fomos surpreendidos por um gesto lindo do casal de amigos Meire e Mário. Como eles sabem que adoramos música e estamos sempre atrás de novidades, eles disseram que nos mostrariam as canções do maior ídolo do Mário, o cubano Silvio Rodriguez. Como eles sabem que não temos aparelho de som, eles resolveram nos emprestar o discman da Meire e o CD favorito do Mário. Foi um gesto simples e super bonito. De repente estavam os dois na nossa frente, dividindo conosco o que eles mais gostam da maneira que eles podem. Bom demais sentir isso!
Passamos a noite ouvindo o Mário tocar no restaurante mexicano enquanto conversávamos com vários novos amigos, que assim como nós, vieram ver como é a vida no Canadá. Muitos ficaram, como a Gabi, que está de mudança para Montreal, ou a Meire, que está barrigudinha, à espera do baby de sangue brasileiro e chileno.
Terminamos a noite tentando lembrar as letras de várias músicas, entre elas "Garota de Ipanema", "O Pato", "Aguas de Março, "Volver a los 17", "Gracias a la vida" e "Corazón Partío". Se a gente estivesse bêbado ainda teria uma desculpa para a falta de memória. Mas estavam todos sóbrio, às gargalhadas por repetir dez vezes a mesma estrofe. "Se va enredando, enredando/ como en el muro la hiedra/ y va brotando, brotando/ como el musguito en la piedra/ como el musguito en la piedra/ Ay, si, si, si"

segunda-feira, maio 30, 2005

Cabeça a milhão

A sola do tênis esta ficando cada dia mais fininha. A gente tem andado feito louco pela cidade desde que nos mudamos para a região central. E haja desodorante e pó granado! Mas a gente não reclama não, essa vida de andarilhos está muito boa, com solzinho ameno, ventinho no rosto e muitos lugares novos para conhecer. Quando estou andando, penso na família, nos amigos, no futuro, no passado e no presente. Penso na minha carreira, nos meus sonhos e na baita força que é preciso ter para mudar as coisas.
Para quem está pensando em morar fora, deixo aqui um aviso: prepare-se para um profundo questionamento sobre o que você quer da vida. Aquelas perguntas que você se faz enquanto está no Brasil ficarão ainda mais numerosas e difíceis. É que aparecem mais variáveis para bagunçar ainda mais a sua mente. Em apenas um dia, você é bombardeado por tantas informações que fica atônito, sem saber para onde correr.
Para um estrangeiro, tudo é mais intenso e o tempo passa de uma maneira curiosa. Três meses passam num piscar de olhos, mas cada mês tem a intensidade de um ano. Para mim, isso é animador, pois se os meses parecem anos, as respostas das minhas questões numerosas e difíceis que estou me fazendo talvez surgirão mais rapidamente. Quem sabe...

São Paulo, meu amor
É verdade que tem muita gente que ama odiar São Paulo e eu admito que há muitas razões isso. Apesar de todos os problemas, eu ainda acredito que essa cidade tem jeito. Neste final de semana, andamos bastante por Toronto para conhecer os prédios mais importantes. Uma vez por ano, as iniciativas pública e privada de Ontario se unem para organizar um evento chamado "Open Doors". Durante um final de semana, edifícios históricos ou elegantes abrem as portas para o público e oferecem visitas guiadas com explicações sobre o local. Fiquei pensando nos paulistanos tendo a chance de conhecer o Palácio das Indústrias ou o Palácio dos Bandeirantes. Imaginei as pessoas se maravilhando com os belos prédios do centro velho, da Paulista ou da Berrini. Esse tipo de evento é totalmente viável em São Paulo e ajudaria muito a elevar a auto-estima do paulistano.
Mais tarde fomos a uma região cheia de galpões velhos no sudeste de Toronto. Naquele bairro há um local chamado "The Distellery" com muitos bares e lojinhas de arte. Os prédios são de tijolinhos, é uma graça, lembra muito o velho e bom Sesc Pompéia. Lá estava acontecendo um festival de jazz até este domingo, o que levou muita gente para aquela região. Pensei nos galpões abandonados da Mooca e do Ipiranga. Assim como acontece aqui em Toronto, esses lugares poderiam ser aproveitados como estúdios de cinema ou centros culturais. Sei que já existem alguns projetos para recuperar a opulência dessas regiões e caminhando aqui em Toronto, senti que São Paulo tem jeito sim!

sábado, maio 28, 2005

Vem chegando o verão

Toronto esta linda e cheia de graça nesses dias. Mesmo com o calorzinho ameno (18 graus), há braços e pernas brancas por todos os lados. Hoje e amanhã os prédios mais importantes da cidade estarão abertos para visitas. É a única oportunidade de conhecer edifícios históricos e glamourosos sem gastar um tostão. Além disso, os shows nas ruas estao começando a pipocar aqui e acolá para a alegria dos canadenses e turistas que já estavam ficando mofados.

quinta-feira, maio 26, 2005

Pizza no onibus

Todo dia aqui no Canada' nos reserva uma pequena surpresa, principalmente no que diz respeito 'as diferencas de costumes em relacao ao Brasil. Ontem, me deparei com uma cena engracada, inesperada e um tanto quanto incompreensivel. Estava no onibus, perto de casa, me preparando para descer. O motorista entao parou o veiculo em um dos pontos, desceu - deixando o onibus ligado -, e entrou na pizzaria em frente. Mais de dois minutos depois, ele voltou, com um pedaco de pizza e uma lata de Coca na mao. Entrou, sentou e continuou viagem.

Isso por si so' ja' e' estranhissimo. Porque o cara parou o transporte publico pra matar a fome. Porque ele saiu dirigindo com uma mao no volante e outra na pizza de pepperoni. Mas mais curioso foi ver que ninguem no onibus esbocou nenhuma reclamacao. Nadinha. Todos esperaram calmamente o retorno do motorista. E, no ponto, as pessoas que queria entrar tambem aguardaram o cara para poder subir no onibus e mostrar que estavam pagando corretamente a passagem.

Ja' tinha ouvido que isso acontecia, mas presenciar a cena foi, no minimo, divertido. Coisas do Canada'.

terça-feira, maio 24, 2005

Ventinho gelado e pirotecnia

Ontem fomos ver a tal festa no Harbourfront em homenagem ao Victoria Day (o dia da Rainha). Pensamos que seria uma baita de uma comemoração à beira do Lago Ontario e lá fomos nós encarar o vento gelado com nosso amigo Fahad. Quando chegamos lá não vimos nada que justificasse nossas mãos geladas. A queima de fogos durou uns 5 minutos e foi tão mixuruca quanto qualquer Caramuru em dia de clássico no Pacaembu. Só valeu mesmo pelo bom papo com o Fahad e pelo movimento nas ruas.

Bob Esponja
Bom mesmo foi ter ficado na cama até tarde vendo Bob Esponja. Isso sim é que é feriadão de verdade! Pensamos tanto no Elói enquanto ríamos das barbaridades daquele desenho. Nem parece, mas já faz uns 4 meses que ele foi ao cinema dividir poltrona com toda a pirralhada só para ver Bob Esponja. Acho que deu saudade...

Reza "Braba"
Compartilho com vocês esta bela oração que recebi da dra Bia que, assim como eu e todas as mulheres deste mundo, sabem direitinho o que é sentir isso na pele.

"Senhor, me ajude a nunca desistir de ser mulher...
Ilumine o espelho do banheiro e proteja minhas pinças, meus cremes e segredos.
Não deixe que eu passe uma semana sem usar um batom vermelho, uma bota alta, um jeans bem justo ou uma blusa decotada.
Proteja meus cachos do vento e meus brincos e anéis dos olhares invejosos.
Faça com que o sol seja meu personal trainer, meu complexo de vitaminas, meu carregador de bateria - mas quando eu pedir um diazinho de chuva, não pergunte o porquê.
Deixe que eu fecho os registros e as janelas. Mas, por favor, abra algumas portas. Nem que seja a do carro.
Ajude para que o meu trabalho não seja bom somente no dia do pagamento.
Para cada dia de TPM, me dê 2 de praia. Ou uma vitrine com sapatos lindos.
Me dê saúde, tempo livre, silêncio. E que nunca falte O.B. na minha bolsa.
Não deixe que a minha testa fique tão franzida a ponto de parecer uma saia plissada. E eu, uma louca estressada.
Em dias difíceis, me dê persistência para para não quebrar a dieta.
Coloque um espelho no meio do meu caminho entre a lavanderia e o supermercado, ou entre o colégio, o sapateiro e a locadora e que, ao me olhar, eu goste do que veja.
Para cada batata quente no trabalho, me dê um café recém-passado.
Faça com que eu não esqueça de ligar para os meus pais e meus amigos de vez em quando e que nunca esqueça ou confunda os aniversários.
Se eu estiver com vontade de chorar, faça com que eu chore um dilúvio. Mas que esteja com maquiagem à prova d´água...
Entenda quando eu rezo para cancelarem uma reunião - não é reza à toa, pode ter certeza.
Ajude a não faltar gasolina, a não furar o pneu, a não arranhar a calota, a encontrar sempre uma vaga bem grande para estacionar o meu carro.
Afaste os motoqueiros do meu retrovisor.
Nos engarrafamentos, faça com que eu ligue o rádio e esteja tocando minha música preferida. E que eu lembre a letra para cantar.
Feche meus olhos para as sujeiras nos cantos, para os sapatos, roupas, livros e
brinquedos no meio da sala - eles vão estar sempre lá, isso eu já sei...
Dê forças para eu insistir que meus filhos comam salada, digam "por favor" e "obrigado", limpem a boca no guardanapo, façam as pazes e acionem a descarga ao utilizar o banheiro.
Ajude para que eu chegue do trabalho e ainda consiga brincar, ver desenho, conferir tarefas escolares, preparar o jantar, organizar as roupas, fazer cosquinha, fazer luta de travesseiros, contar história, ler ou ver um jornal na TV... Ou fazer pelo menos UMA dessas coisas. E se eu não tiver a menor condição de me manter em pé, faça com que meu filho chegue dormindo da escola.
Dê firmeza para meus seios, nádegas e para a hora do castigo.
Nunca deixe faltar na minha vida comédias românticas e boas depiladoras.
No meio de tudo isso, faça com que eu ache tempo para virar namorada de novo, ir ao cinema, jantar fora, beijar na boca, dormir abraçadinha.
Já que eu nunca pedi milagres, faça que minhas celulites sejam ao menos discretinhas. E que ele nem note minhas gordurinhas.
Proteja minhas poucas horas de sono e não me julgue mal caso eu não acorde no meio da noite para cobrir meus filhos.
Por mais longo e agitado que seja o meu dia, Senhor, faça com que apenas ELE termine... Não eu!"

domingo, maio 22, 2005

Para animar a festa!!!

Sim, estamos muito festeiros. Acabamos de voltar de mais uma, desta vez um churrasco de uma jornalista bem simpática chamada Gabriela. Foi a primeira vez que comemos o churrasco norte-americano, aqueles hamburgueres feitos na grelha e colocados dentro do pao. E foi um hamburguer e outro que conhecemos mais pessoas animadas e cheias de boas historias para contar. Um dos mais divertidos que conhecemos chama-se Clezio. Ele esta aqui desde 1992 com a esposa e o filho. Quando perguntei o que o impulsionou a deixar o Brasil, ele respondeu:
- Quando o Collor ganhou as eleicoes, eu percebi que era ele ou eu. Nao havia espaco para nos dois la.
Juro que nao esperava uma resposta tao convincente!

sábado, maio 21, 2005

Dormi no banco da praça

É isso mesmo! O nosso final de tarde de sexta-feira foi muito especial. Paramos numa praça perto de casa para conversar e lagartear ao sol. Os termômetros marcavam 21 graus, um dia lindo em Toronto. Sentamos num banco para espiar o movimento e acabei dormindo no colo do Martim por quase uma hora. Que delícia! Acordei renovada para ir a festa de despedida da Valéria. E lá fomos nós desejar boa sorte para ela e para o namorado dela, o Darcio, que vai ficar sozinho por alguns meses. A festa foi ótima, com bom papo, boa cerveja e gente muito, muito pra cima. Era o que estávamos precisando! Confesso que estava um pouco desanimadinha nos últimos dias mas agora retomei as forças novamente.

sexta-feira, maio 20, 2005

As fotos, finalmente!

Para quem está com vontade de nos rever, aqui vai o nosso álbum de fotos de Montreal e Quebec. Clique aqui.

Julia Roberts, minha esperança
Depois de passar o dia todo falando e ouvindo inglês, eu chego em casa certa de que já estou dominando essa língua. Mas basta eu ligar a TV para cair na real: há muita coisa que eu ainda não entendo. Em alguns momentos, eu só entendo do que eles estão falando porque aparecem imagens simultâneas. É como em "Cidade de Deus", eu "só sei ler as figuras".
Quando começo a me desesperar, ela aparece para me salvar. Sim, a Julia Roberts pode fazer alguns filmes ruins, mas felizmente a dicção dela é clara o suficiente para animar esta criatura em momentos de desespero. Eu entendo absolutamente tudo o que ela fala e isso me deixa feliz da vida!

Indícios de que você é brasileiro
Quando converso com alguns amigos, vejo que algumas situações sempre se repetem quando a gente chega a Toronto. Por exemplo, todo brasileiro recém-chegado:
- já pensou em dar sinal para o ônibus
- se atrapalhou com as portas e a puxou em vez de empurrá-la (e vice-versa)
- se queimou na água quente das torneiras
- deu de cara com a porta de alguma loja no domingo à noite
- já se sentiu ridículo por usar um casaco enorme quando está 10 graus
- já passou frio na tentativa de usar menos roupas quando está 10 graus
- já ficou perplexo ao ver as canadenses de saia e sem meia num frio de 0 grau
- se encantou ao ver um esquilo e ficou todo bobo ao ver a neve

quarta-feira, maio 18, 2005

Montreal

Como a Marta disse, voltamos a Toronto, 'a escola e ao ritmo daqui. Sentimos falta de Montreal, de ter tido a oportunidade de passar mais tempo la', de sentir melhor o lugar. Porque a impressao que ficou dos tres dias que passamos foi otima. A cidade tem um ar muito interessante, parece que respira cultura, fervilha por todos os cantos da area central, por onde andamos muito. Tem festivais de musica, arte, teatro, a mistura de frances e ingles, predios historicos fantasticos e maravilhas da arquitetura moderna, lado a lado literalmente. Contrastes por todos os cantos.

Parece uma cidade com mais personalidade, com mais alma. Parece estar em outro pais, porque Quebec (a provincia onde fica Montreal, a unica que fala frances no Canada') parece outro pais, mais relaxado (pro bem e pro mal, apesar de que "mal" no Canada' nao e' muito coisa), menos sisudo. As pessoas pareceram mais abertas tambem, mais calorosas. Foram apenas tres dias, mas a cidade definitivamente merece mais, justamente para podermos conferir e desvendar essa diferenca entre o que e' o Canada' ingles e o frances, o Canada' americano e o Canada' europeu.

Um dia vamos aprender frances (apesar de que da' pra passar la' sem isso, segundo soubemos).

Cachorros-quentes

Comentario rapido sobre diferencas culturais. Hoje, provocamos risos nos professores com um pequeno problema que tivemos aqui quando fomos comer cachorros-quentes. Na primeira vez que tentamos, vimos a tabela de precos na barraquinha, examinamos as salsichas que eram preparadas na frente dos clientes e mandamos ver: queremos um "hot dog" com "sausage". "Sausage" nossa vida toda foi traduzida como "salsicha". Mas nao. Recebemos um pao meio seco e esturricado da grelha com um tipo de linguiça. Estranhamos, especialmente porque tivemos que pagar 1 dolar a mais do que o preço do "hot dog" da tabela, mas acabamos pensando que aquele era um cachorro-quente especial.

Na segunda tentativa, pedimos o "hot dog" mais barato e ai recebemos um pao (ainda meio seco e esturricado) com salsicha. Descobrimos que aqui eles chamam nao so' o sanduiche, mas tambem a salsicha de "hot dog". "Sausage" e' linguica (varios tipos de linguica). Hoje, contando a experiencia pra professora, entendemos que nossa primeira tentativa foi como ter dito pra um dogueiro em Sao Paulo "me da' um pao com salsicha com linguica"...

Valeu umas boas risadas.

segunda-feira, maio 16, 2005

Estamos de volta - Parte II

Segunda-feira de sol tímido e temperatura máxima de 14 graus. Voltamos à vidinha de sempre depois de uma ótima viagem e de dias de muito estudo. Passei horas e horas na biblioteca estudando espanhol. Sim, isso mesmo, espanhol. Sábado fiz o teste do DELE (Diplomas de Español como Lengua Extranjera), mas antes fiz algumas provas dos anos anteriores para ver como era. Acho que não me saí mal na prova, o importante agora é que posso voltar a me concentrar em inglês novamente. Quanto à nota do DELE, ela só sairá daqui a uns três meses. Paciência...
Bom mesmo é que depois de tantos dias de poucas horas de sono, finalmente dormi muuuuuito. Ontem, só saímos da cama depois do meio-dia, maravilha!!!

Tico e Teco falhando
Depois de tantos dias pensando e falando em inglês, espanhol e português, meus dois neurônios começaram a falhar de verdade. O Martim, como sempre, me ajudou muito e começou a conversar comigo em espanhol para que eu pudesse treinar para a entrevista do DELE. Bom, vocês devem imaginar o resultado disso. Nunca tivemos conversas tão insanas como as dos últimos dias. Eu perguntava em espanhol, o Martim respondia em inglês e eu comentava a resposta dele em português. Não há cerébro que aguente três idiomas ao mesmo tempo.

Noite de sotaques
Depois de sobreviver ao DELE, ainda encaramos dois programas na noite de sábado: um jantar na casa da nossa professora e uma festa de um amigo. Como é de praxe em Toronto, ouvimos um monte de sotaques diferentes em poucas horas. Nossa professora nasceu no Paquistão, mas fala como canadense. O marido dela é sul-africano. Nosso amigo que deu a festa é coreano e estava acompanhado da namorada dele, que é suíça. Na casa dele, havia japonês, chinês, mexicano e árabe. Toronto é isso aí, meus caros!

Igualdade
Por falar em diversidade, queria contar algo que tem me chamado atenção. Ao contrário do Brasil, a biblioteca não é um ambiente para uma minoria jovem e abastada. Aqui você encontra gente idosa ou muito humilde dividindo espaço com qualquer estudante comum.
Na primeira vez que me sentei para ouvir Paco de Lucía na biblioteca, percebi que já havia visto em algum lugar o sujeito com cara de Benito de Paula que estava ao meu lado ouvindo CD. Na manhã seguinte, enquanto caminhava pela rua, descobri de onde o conhecia. Ele costuma abordar as pessoas para pedir esmola.
No mesmo dia o encontrei novamente, desta vez curtindo um velho e bom LP na vitrola da biblioteca. Sempre que eu o vejo ao meu lado, fico satisfeita. Pelo menos em um lugar do mundo, acesso à cultura é um direito de todos.

quinta-feira, maio 12, 2005

Estamos de volta

Depois de mais de uma semana de silêncio, estamos de volta à ativa. Para quem não sabe, os pais do Martim estiveram aqui em Toronto por uma semana e, claro, passamos quase todo o tempo ao lado deles. Fomos para Montreal e Quebec e voltamos na terça à noite cansados e felizes. Aos poucos vamos contar nossas impressões sobre o pouco que vimos da província de Quebec, mas já podemos adiantar que adoramos lá! Montreal é uma cidade viva e muito charmosa. Adorei ouvir francês por alguns dias, é, sem dúvida, muito melhor que ouvir inglês o tempo todo.
Esses últimos sete dias foram inesquecíveis: sol, risadas, abraços, beijos, papos gostosos, brownies, muffins, croissant, capuccinos, pasta, vinho, flores, praças, igrejas, narizes gelados e pernas doloridas de tanto andar. Ontem, a despedida foi com lágrimas porque a gente sabe que vai sentir muita falta de todo esse afeto e calor dos últimos dias. De repente nós estávamos sozinhos de novo, de rostos úmidos, abraçados no meio do saguão do aeroporto, num silêncio infinito. Sentia uma mistura de saudades com satisfação por ter vivido intensamente esses últimos dias. Acho que essa viagem nos encheu de esperanças!

Aniversário
E no meio dessa correria dos últimos dias, eu fiquei mais velhinha. Na quinta, dia 5, ganhei flores, um par de tênis, um almoço gostoso, um porta-treco que a Cida e o Gera compraram na França e até um brinde com vinho sul-africano! Na escola, cantaram "Happy Birthday" duas vezes na sala de aula e comemos donuts oferecidos pelo diretor (uma grande coicidência, até agora não entendi o motivo daquele surpreendente mimo). Recebi muitas mensagens carinhosas pela internet dos meus melhores amigos e terminei o dia ouvindo minha família cantando "Parabéns pra você" em coro por telefone. Só queria agradecer pelo amor e carinho que tenho recebido de vocês. Obrigada mesmo!

Passeata
Quando estava vindo para a escola hoje de manhã, vi uma passeata na rua. Eram umas 300 pessoas gritando palavras de ordem no meio da Carlton Street. Na verdade, havia mais policiais do que manifestantes. Havia helicóptero, cavalos, motos e viaturas por todos os lados e alguns colegas de imprensa registrando a passeata. Lá no meio daqueles canadenses, vi uma bandeira que me chamou atenção. Era um pano vermelho com o rosto do Che, exibido com orgulho por um manifestante. Fiquei me perguntando se ele realmente sabe quem foi ele ou, pelo menos, o primeiro nome dele.
Pensei também no meu pai, que chegou ao Brasil nos anos 60 e adorava estar perto das multidões que protestavam pelas ruas de São Paulo. Muitas vezes ele não entendia o que estava acontecendo ou o que as pessoas gritavam em palanques, mas ele tentava, não estava alheio aos acontecimentos internos, como muitos estrangeiros costumam fazer. Acho que me senti como ele, sem entender tudo o que se passa em volta, mas louca de vontade de enxergar melhor cada particularidade deste país.

segunda-feira, maio 02, 2005

Zazueira

Hoje acordei com "Zazueira" (do Jorge Benjor) na cabeça. Deve ser porque estou ansiosa para que chegue logo quarta-feira. Minha versão é assim:

Eles vêm chegando (eles vêm chegando)
E feliz vou esperando (e feliz vou esperando)
A espera é difícil (a espera é difícil)
Mas eu espero sonhando (mas eu espero sonhando)...


Ando muito musical esses dias. Como não temos nenhum aparelho de som em casa, canto mentalmente enquanto ando pelas ruas. Como sempre, canto flamenco, até mesmo as partes instrumentais. Tenho estudado muito ao som de Paco de Lucía. Vou à biblioteca central, pego o "Live in America" e fico estudando com fones de ouvido. Essa biblioteca é inacreditável, talvez seja um dos lugares que eu mais ame nesta cidade.

Falando em assuntos musicais, vou contar uma descoberta maravilhosa. Descobrimos que nosso amigo chileno Mario é um excelente compositor. A gente foi ao restaurante mexicano onde ele toca e ficamos impressionados com a performance dele. As canções dele lembram muito Jorge Drexler. Bem bonito!