segunda-feira, novembro 27, 2006

Retrospectiva 13: Hungria


Buda (abaixo) e Peste (acima), duas partes separadas pelo Danúbio Mais fotos aqui



Por que a Hungria? Pelo óbvio. Desde que li "Budapeste", do Chico Buarque, sonhava com a cidade amarelada descrita por ele. Em poucos dias devorei as 174 deliciosas páginas que narravam a vida de José Costa e guardei na mente uma foto envelhecida de ruas estreitas e folhas secas. Imaginava uma capital pequena de prédios imponentes, mas a imagem se desfez assim que o nosso ônibus pegou uma larga avenida de subúrbio. Era uma Marginal Tietê mais ajeitada, com galpões pré-fabricados, tráfego pesado e nenhuma imaginação.

Aquela realmente não era a Budapeste do Chico. Estávamos no subúrbio, bem longe das belas pontes que cruzam o Danúbio e nos levam aos dois lados da cidade. Buda, do lado oeste, é a parte velha e turística da capital húngara. Na outra margem fica Peste, onde o novo predomina, ainda que salpicado de edifícios históricos e muito charme. Mas toda a beleza da cidade ainda não fazia parte da nossa realidade naquela manhã. Teríamos que passar primeiro pelo purgatório.

Foram oito horas de viagem dentro de um micro ônibus lotado e sem ar-condicionado. Poucos minutos de sono tranquilo num trajeto em ziguezague. Incontáveis paradas pelo caminho, incluindo as demoradas fiscalizações da polícia de fronteira da Eslováquia. Os olhos estavam pequenos e as mochilas, cada dia mais pesadas. No hotel, fomos informados que não poderíamos descansar no quarto reservado porque a pernoite só valeria a partir das 14h. Olhei para o pulso, sete da manhã. O jeito era deixar a mala, aquietar o estômago numa espelunca qualquer e fazer hora pela cidade.

Éramos dois moribundos pelas ruas. "Um lugar para deitar, pelo amor de Deus!" Estávamos em busca de um parque, um gramado. Lá estava ele, verdinho, linda à beira do Danúbio. Senti meu jeans grudar na pele. Uma chuva que caíra horas antes acabou com nossas pretensões, mas felizmente havia um desconfortável banco de madeira. Finalmente o sono dos justos!

O segundo tempo seria no hotel, de onde não sairíamos até o dia seguinte. No metrô, deciframos a rede de estações de nomes impronunciáveis e compramos a cartela econômica com 10 passagens. Como é de praxe, validamos dois deles e embarcamos felizes no nosso trem. No meio do caminho, foi preciso fazer uma baldeação, pois estávamos na linha errada. Na chegada ao nosso destino, alívio, faltavam apenas uma escadaria e alguns metros de calçada. Lá no topo dos degraus, duas fiscais treinadas pela Gestapo tentavam flagrar golpistas que viajavam gratuitamente. O Martim entregou nossos comprovantes.

- Vocês terão de pagar uma multa.
- Como?
- 5 mil forints (20 euros).
- Mas por quê?
- Se não pagar agora, pague no correio, mas ficará em 14 mil forints (60 euros).
- Mas por quê?

Enquanto tentávamos entender o que estava acontecendo, elas gritavam as poucas frases em inglês que sabiam. Queriam nossos passaportes, mas nos recusamos a entregá-los. Quanto mais demorávamos, mais elas se enfureciam. Pensei em fugir, mas sabia que seria besteira. Os ânimos foram se exaltando a medida que o volume da discussão, ia aumentando. Tentamos manter a calma e pensar. Decidimos pagar a tal multa, mas sem deixar de soltar uns desaforos.

No hotel, conseguimos entender o episódio com a ajuda da recepcionista que sabia falar inglês. Em Budapeste, paga-se por trajeto em uma única linha. Se precisar fazer baldeação, azar o seu, terá de usar outro bilhete. Como saber isso? Simples, é só saber húngaro.

No dia seguinte, fomos ao escritório de turismo para fazer uma reclamação. Lá, a atendente contou que isso acontece há, pelo menos, 5 anos com turistas desavisados, mas que aquele sistema é "normal". Novo bate-boca. Mais frustração.

A passagem por Budapeste, infelizmente, foi marcada pela pouca simpatia das pessoas e pela evidente falta de preparo para lidar com turistas. A nossa estadia na Hungria só melhorou quando fomos a Pécs (pronuncia-se "Pêtch"), ao sul, próxima à Croácia. Pequenina e acolhedora, a cidade foi um presente para esses dois viajantes cansados de guerra.

Dispostos a uma reconciliação, voltamos a Budapeste. Recomeçamos a nossa relação e como valeu a pena! Exploramos as principais atrações da cidade, entre elas um parque de estátuas do regime comunista, os famosos banhos termais e uma agradável ilhota no meio do Danúbio. Outra decisão acertada foi ter se hospedado na região central, num pequeno apartamento de um prédio antigo e recém-reformado. Os donos, um azerbaidjano e um romeno, eram jovens empreendedores que apostam num boom turístico. Eles acreditam no potencial da capital húngara e esperam que o turismo se desenvolva com mais força. Nós também.

Pontos fortes: a beleza e imponência das cidades e a grande quantidade de atrações

Pontos fracos: a pouca simpatia e o despreparo das pessoas para lidar com estrangeiros. A indiferença beira o desprezo, é irritante. Não sei se faltou sorte, mas foi o que sentimos

Bola fora: a nossa maior mancada foi não saber falar húngaro. Eu devia ter comprado os fascículos do curso rápido de húngaro nas bancas...

Você não pode perder: os banhos termais (fomos ao tradicional Gellert), Pécs e longas caminhadas por toda a cidade, especialmente por Buda, pela ilha Margarida e pelas margens do Danúbio. Para comer, não perca o delicioso restaurante Menza (1061 Liszt Ferenc ter 2)

Você pode dispensar: o Parque das Estátuas, que é um desleixo só. No local, bem afastado da cidade, há um amontoado de símbolos do comunismo que foram poupados da destruição após o fim do regime. Hoje são fonte de dinheiro e alvo de pombos.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Eu li em algum lugar, nao sei se eh verdade, que o Chico nunca esteve em Budapeste... vai ver foi isso. :)

Anyway as fotos estao otimas. Voces estao com umas carinhas tao felizes, com excecao da foto do sorvete, ha ha ha.

e agora toda vez que eu ouvir a valsa eu vou me lembrar que o Danubio nao eh tao azul. Que decepcao... :)

Beijos proces!

3:05 PM  
Blogger Frontera said...

Luh

O Chico realmente não foi a Budapeste antes de escrever o livro. Ainda assim, eu procurava a cidade do livro, hehehe

Ano passado ele foi para lá, as imagens estão em um dos documentários dele recém-lançados no Brasil. São uns DVDs numas caixas lindas, mas são caras de doer

Um beijo

3:29 PM  

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