Retrospectiva 14: República Tcheca

A velha prefeitura com seu relógio astronômico é uma das atrações. Mais fotos aqui
Praga, capital da República Tcheca, parece ter saído dos livros de fábulas. Tudo é lindo, colorido e bem preservado. Um castelo imponente, que começou a ser construído no século 9, espia do alto de uma colina a cidade cortada pelo rio Vltava. As ruas estreitas e impecáveis mantêm o charme e a melancolia, apesar das hordas de turistas que lotam a cidade.
Para completar o cenário de conto de fadas, sininhos tilintam de hora em hora quando todos se rendem à graça do relógio astronômico, que fica em uma das torres da antiga prefeitura. Um boneco representando a morte aciona um carrilhão por onde desfilam bonecos de 12 apóstolos seguindo São Pedro. A engenhoca, construída em 1410, arranca aplausos, assobios e flashes da multidão.
O encanto exercido sobre os visitantes é inevitável. A cidade celebra seu renascimento cultural e seduz amantes de música clássica com concertos em igrejas e palácios. Mas toda essa beleza não é a maior lembrança que guardamos. Nas nossas mentes, Praga ficou marcada como o lugar onde nossos pavios ficaram bem curtos.
Quem viaja, sabe. Por mais que tentemos manter o bom-humor, a tolerância um dia se esgota. É quando os sorrisinhos cessam e a gente pára de compreender a situação alheia feito monge tibetano. Foi exatamente isso que aconteceu após cinco meses de estrada e muitos sapos engolidos. Estávamos cansados.
Para piorar, os tchecos não eram muito diferentes dos húngaros. Onde quer que a gente fosse, a presteza e atenção deles era digna de atendente do Detran. Repetiam as frases em inglês sem levantar os olhos e não hesitavam em aumentar a voz quando julgassem necessário.
A mistura de tchecos mal-humorados com brasileiros intolerantes, como era de se esperar, foi explosiva. No começo, eram só resmungos. Bastava um segurança começar a nos seguir na loja para eu ficar irritada. Depois, veio a fase de revide. Se o caixa era folgado, a gente não deixava por menos. Mas aí chegamos à parte mais delicada, a dos bate-bocas. O primeiro e maior deles aconteceu num banco, onde fomos maltratados por uma funcionária. Acabamos na sala da gerente, onde ela se desmanchou em desculpas. A outra discussão, para fechar a estadia, foi com a dona da pensão onde nos hospedamos, uma senhora mal-educada e sem noção alguma de boa administração.
Foi curioso chegar ao fim dessa sonhada temporada fora do Brasil de uma maneira tão desagradável. O nível de estresse estava nas alturas, mas fazíamos uma força danada para manter o controle. Acabamos envolvidos em confrontos absolutamente justificáveis e aprendemos. Há momentos em que é preciso rebater sem culpa.
No ônibus, a caminho do aeroporto, fiquei pensando na necessidade de passar por essas situações. Porque viagem não é apenas uma sucessão de episódios felizes e gloriosos. Felicidade garantida só existe em comercial de absorventes, onde mulheres saltitantes de calças brancas vivem às gargalhadas. Sabemos que a fórmula pronta de felicidade constante é uma bobagem que nos aprisiona, mas por que, diabos, insistimos em acreditar nela e nos frustrar a cada imprevisto?
A cidade com ares de contos de fadas, quem diria, nos deu uma boa dose de realidade. Era um aquecimento, o Brasil ainda estava por vir.
Pontos fortes: a beleza de Praga e a boa infraestrutura turística
Pontos fracos: a antipatia e falta de tato dos tchecos com os visitantes. Não deixe de ir para lá, mas aviso: vá blindado.
Bola fora: tentar descansar no parque do castelo. Quem sentar no gramado toma um pito do guarda. Outra mancada é trocar dinheiro nas casas de câmbio sem prestar atenção nas cotações exibidas nas placas. Eles só exibem o preço de compra na entrada, que é menor que o de venda. No mínimo, isso é má fé.
Você não pode perder: A Catedral de São Vito, uma magnífica construção gótica iniciada em 1344 e a lindíssima Ponte Charles, uma obra com 520 metros, cuja construção foi iniciada em 1357. Dos dois lados da ponte há réplicas de estátuas com imagens de santos católicos. E a vista do rio Vltava é linda, principalmente no final da tarde.
Você pode dispensar: viela dourada do Castelo de Praga, uma ruazinha estreita ladeada por pequenas casas construídas no século 16 e hoje ocupadas pelo comércio de quinquilharias turísticas. De que adianta ter casas antigas se não é possível conhecê-las por inteiro? Resumindo: um engodo.

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home