quinta-feira, outubro 26, 2006

Retrospectiva 8: Espanha, meu amor


As cores vibrantes da Espanha num jardim de Madri. Mais fotos aqui



Pelo título deste post, não dá para esperar imparcialidade alguma desta que vos escreve. Sou suspeita para falar qualquer coisa sobre a Espanha e não pretendo fugir disso. Sou mais uma apaixonada por esse país e aqui quero dar vazão ao que sinto.

Para começar, vou repetir clichês verdadeiros. Sim, a Espanha é colorida, vibrante e tem uma cultura admirável. A comida é deliciosa, os vinhos são ótimos e a arquitetura é de encher os olhos. Mas nada, nada mesmo, me arrebata tanto quanto as pessoas. É nelas que está o ar festivo que caracteriza o país.

Se Dorival Caymmi fosse europeu, certamente ele nasceria espanhol (andaluz, para ser mais específica). O ritmo de vida por lá é calmo, embora muitos reclamem do estresse do dia-a-dia nas grandes cidades. Então vou contar um pouquinho do cotidiano terrível deles.

Se você andar por Madri umas 6h ou 7h da manhã, provavelmente ouvirá os seus próprios passos. A cidade só começa a dar sinais reais de vida depois das 9h e, entre 13h30 e 14h, novamente reduz seu ritmo para um almoço que se estende facilmente até umas 16h. A refeição? O tradicional menu traz sopa ou outra entrada, vinho, pão, um prato principal e a sobremesa. Depois, os raros sortudos fazem a siesta, a famosa cochiladinha antes de retomar o trabalho. A jornada acaba depois das 20h e aí é hora de jantar e curtir a vida em casa, pelas ruas, num bar de tapas ou se preparar para uma baladinha depois da meia-noite.

Acha que estou exagerando? Eu também pensava que era papo-furado, mas um dia, em Madri, dei de cara com uma matéria sobre os hábitos espanhóis dentro da União Européia. Era a confirmação: lá tudo abre e fecha mais tarde e de fato eles são os maiores dorminhocos do bloco europeu. Quer mais? A Espanha tem a maior expectativa de vida da região, chegando à média de 85 anos para as mulheres. Paradoxalmente, o país é considerado o lugar onde mais se trabalha, uma grande surpresa para mim, que trabalhei por quase cinco anos numa empresa espanhola e nunca encontrei meus chefes no escritório depois do almoço às sextas-feiras.

É verdade que minha visão é baseada em um mês e meio por lá e na opinião de amigos que moram lá há anos. Sei que há muitas Espanhas dentro da Espanha, na verdade, há uma Catalunha, um País Vasco, uma Andaluzía e muitas outras províncias dentro desse país de 40 milhões de habitantes. Pesquisas, por mais sérias que sejam, nos induzem a generalizações. Mas há algo inegável na Espanha, algo que qualquer ser desprovido de sensibilidade pode perceber. É a intensidade que está em tudo, nas cores, nos sons, nas celebrações, manifestações e, principalmente, na maneira de viver a vida. Feche os olhos e pense em Picasso, Gaudí e Almodóvar. Sinta a guitarra do Paco de Lucía, a força do flamenco e o choro de um cantaor. Você vai entender o que estou falando, pode ter certeza.

A CHEGADA

A primeira vez que avistei a Espanha foi do céu. Lá longe, linhas esbranquiçadas eram desenhadas por embarcações suaves. O sol enchia aquela manhã de festa e cobria o mar de estrelinhas. Era março, mas o inverno realmente já tinha ficado para trás. Andaluzía, como sempre, estava iluminada, feliz, doce.

Málaga foi a primeira de uma série de cidades de desembarque na Espanha que aconteceriam naquelas semanas. Depois vieram Tarifa, Castro de Alcañices, Rionor de Castilla e, finalmente, Madri. Foram muitas chegadas, cada uma com um significado especial. As quatro primeiras pareciam ensaios para uma chegada desastrosa na capital. Fazia muito calor, o trânsito dava medo e a rodoviária estava insuportavelmente cheia, mas e daí? De mochila pesada nas costas e pele suada, eu cantava feliz: Triana, Triana, que bonita es Triana...

Faltava muito ainda para chegar a Triana. Primeiro vieram as semanas em Madri e aulas de flamenco na Amor de Dios. Depois, a chegada dos pais do Martim e o passeio por Toledo. Foi somente em maio que embarcamos para Andaluzía, com estadia em Granada e chegada triunfal em Sevilha no dia do meu aniversário. E finalmente veio a bela Triana, bairro onde nasceu o flamenco, meu amor.

Passamos ainda pela belíssima Cádiz, pela engraçada feira de cavalos de Jerez de la Frontera e pela monumental Córdoba. Pensa que acabou? Ainda ficamos duas semanas na deslumbrante Barcelona, de onde acompanhamos a final da Liga dos Campeões e engrossamos, quase afônicos, o mar de 120 mil pessoas comemorando a vitória do Barça nas Ramblas.

O período na Espanha foi, sem dúvida, o melhor de todo esse tempo fora do Brasil. Ficam aqui meu longo suspiro de saudades e as lembranças daquelas semanas: os amigos Tiê e Vanessa; o doce reencontro com os pais do Martim; as imagens e sons de flamenco pelas ruas, tablados e teatros; as horas preguiçosas nos parques de Madri; as ruas de Barcelona e o vento das praias de Cádiz. Está tudo aqui ainda, na pele, na mente, na alma. Não há um só dia que eu feche os olhos e sinta o cheiro daqueles lugares. Porque a Espanha, meus caros, essa eu levo dentro de mim.

Pontos fortes: as pessoas, a cultura, a História, a comida e aquele ar de festa que tanto atrai turistas do mundo inteiro.

Pontos fracos: difícil essa, heim? Falta cuidado na conservação de muitos lugares, como a Plaza de España em Sevilha. Os preços das entradas de muitos lugares também são bem salgados. Exemplos? A Catedral de Toledo, a Sagrada Família, La Pedrera e Casa Batló.

Bolas fora: ir a Jerez de la Frontera durante a Feira de Cavalos, porque tudo está fechado e o evento é de gosto duvidoso. Outra mancada é deixar para comprar os ingressos da Alhambra na última hora. Na verdade, tudo na Espanha deve ser planejado com bastante antecedência porque os turistas invadem o país. E falando em planejamento, muito cuidado com o ônibus para o aeroporto de Sevilha. Vá mais cedo para o ponto porque o serviço atrasa. Quase perdemos nosso vôo por causa do atraso do motorista e de um defeito na máquina de cobrança. Para piorar, o doido que estava ao volante do nosso ônibus resolveu bancar o Alonso pelas avenidas e quase provocou um acidente.

Você não pode perder: a Alhambra (em Granada), a Mesquita de Córdoba, a graciosidade de Cádiz, as obras de Gaudí em Barcelona e a delícia que é caminhar por Madri. Quando estiver na capital, não deixe de dar uma esticadinha até Toledo e o Escorial.

Você pode dispensar: a subida nas torres da Sagrada Família se estiver sem paciência ou bom condicionamento físico. A melhor maneira de se apreciar essa incrível obra arquitetônica é do chão mesmo. Dispense também uma visita ao centro de informações turísticas de Granada, onde os atendentes destoam do jeito caloroso da maioria dos espanhóis.

O MAIOR AMOR DO MUNDO

Falando na Espanha, meu amor, queria falar do maior de todos os amores. Estamos celebrando nesta semana o nosso quarto ano de vida juntos. Na verdade, a nossa história é bem mais longa que isso, talvez de séculos, já que me disseram que, astrologicamente, minha alma é velhinha, velhinha. Deve ser isso mesmo porque sinto que meu amor pelo Martim vai muito além do tempo e da distância.

Estou feliz de ter vivido tanto com ele em tão pouco tempo. E que venham mais 40, 80, 160 anos!

6 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Pra vcs amantes amados

O Amor não consiste
em duas pessoas olharem uma para outra; mas, olharem juntas na mesma direção.
As pessoas mais felizes são as que abrem o coração aos influxos do Amor.
Parabens p/os dois corações

10:55 PM  
Blogger Frontero said...

Meu amor

Que lindo.
Tou feliz demais por essa semana e por te ver voltar a escrever.

Longos beijos
Martim

2:51 PM  
Anonymous Anônimo said...

Ó que bonitinho! :) Parabens pelos 4 anos!!!

Eu pensei que nao ia ter a parte "pontos fracos" nessa retrospectiva, ha ha ha.

Beijos e felicidades!

Lu

2:49 PM  
Anonymous Anônimo said...

Que venham mesmo 40, 80 anos..... E que sejam sempre bons e felizes para vocês !!

8:24 PM  
Blogger Drica <* *> said...

Martovisk... estah na hora de fazer um super guia para publicac,ao. Seus textos sao otimos! Alias, feliz dia-a-dia do amor! Eh bom, huh? Bejitosss da Drica <* *>

1:04 AM  
Anonymous Anônimo said...

Hein? Cartao postal? Eu nem tenho seu endereco, ue'... E nenhum cartao foi enviado ontem nao, para sua informacao.

Vai entender esse povo estranho...

5:54 PM  

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