Retrospectiva 7: Portugal

Parece piada, mas não é. Mais fotos aqui
Dizem que o português falado pelos brasileiros é mais doce que o da terrinha. Nossa cadência é considerada mais melodiosa, menos dura ou, como disse Antonio Candido, "açucarada", segundo a revista Língua Portuguesa deste mês. Não sei se isso tudo é verdade, só sei que nosso idioma nunca nos pareceu tão delicioso quanto nos primeiros momentos em Portugal.
Foram meses e meses de português escasso. No Canadá, soava como transgressão. Na Europa, era alívio. No Marrocos, desespero. Não tínhamos idéia de como estávamos sedentos da nossa língua. Foi só quando comecei a cantarolar uma musiquinha ruim da Banda Eva num carro que percebi a falta que eu sentia. E repetia, exagerando na articulação: vem meu amor, me tirar da solidão, vem meu amor...
O que fazia eu ouvindo axé? Explico. Durante a travessia de barco entre Tanger e Tarifa, conhecemos Victor, um lusitano que contrariava o estereótipo de bigodudo mal-humorado da padaria. Sorridente, nos ofereceu carona a Beja, ao sul de Portugal, a bordo de um Audi a 180km por hora. Admirador confesso da música brasileira, ele logo se empolgou a enfiar no CD Player uma seleção de gosto duvidoso. E assim fomos cantando e falando, enquanto o patrão dele, o sr João, de 74 anos, adormecia no banco da frente.
Foi como um abraço acolhedor. Uma recepção calorosa. Um momento em que pensamos nas nossas avós e no poder das orações dessas velhinhas. Nós, que sequer sabíamos como faríamos para cruzar a fronteira entre Espanha e Portugal, fomos carinhosamente conduzidos por dois leirienses durante quatro horas de viagem à rodoviária bejense de onde sairia nosso ônibus para Évora. Na despedida, sorrisos, agradecimentos, fotos e mais um abraço.
Acho que esse episódio resume nossa passagem por Portugal, um lugar de boas histórias, belos lugares e gente muito amável. É verdade que há controvérsias, especialmente se você tocar nesse assunto com muitos brasileiros que moram lá e já sofreram algum tipo de preconceito. Mas não se deixe levar por impressões negativas. Se você sempre teve vontade de conhecer Portugal, vá. E se nunca pensou no assunto, pense. Portugal é linda demais para ser ignorada.
Lisboa vista do alto do Castelo de São Jorge é inesquecível, com seus tons pastéis e o sol caindo no Tejo. De repente, Madredeus estará soando na sua mente, será inevitável. Pela Alfama, o ar melancólico tão marcante na cultura portuguesa vai te invadir, deixar o olhar terno, com saudade de não sei o quê.
Viajar por Portugal emociona. Em Évora, me encantei com a graciosidade das ruas. Em Lisboa, fui inundada pela doce melancolia da cidade. No Porto, me revoltei com a quantidade assustadora de ouro do Brasil na Igreja de São Francisco. Mas foi em Trás-os-Montes que nos emocionamos de verdade. Foram dias e mais dias em busca da história dos bisavós do Martim, ora afundados em papéis no Arquivo Distrital de Bragança, ora rodando pelas tortuosas vias de aldeias transmontanas. Bastava o nosso carro entrar nas pequenas vilas para virar atração. As velhinhas de preto, que caminhavam tranquilamente sob o solzinho ameno, quando nos viam não titubeavam. Davam meia volta e nos seguiam com seus passinhos curtos. Cabeças surgiam pelas janelas, olhinhos pequenos se espichavam, senhores se debruçavam em parapeitos. Não demorava muito para alguém se aproximar e perguntar o que, diabos, dois brasileiros jovens estavam fazendo em Vale de Frades ou Outeiro. A curiosidade era tanta que eles iam além da nossa missão por lá. "Mas são casados?" "Tens filhos?" "São católicos?"
Passada a fase de inquérito, eles contavam a vida inteira. Ofereciam vinho, café, comida e mais um pouco nos convidariam para apadrinhar o casamento da filha. De desconfiança exagerada, passavam a demonstrações explícitas de afeto. Às vezes, até com doses de preocupação. "Voltam ao Brasil de avião? Vão com Deus, mas tomara que o avião não caia."
Foram momentos assim que deram ainda mais sentido à nossa estadia em Portugal. Uma terra linda, cálida e suave, com cheiro de mato molhado e vento no rosto. Um lugar de gente de olhar desconfiado e de coração grande. Ficaram as lembranças e a vontade de um dia voltar. Ao som de Madredeus.
Pontos fortes: as atrações turísticas, a comida deliciosa e barata e, principalmente a História. É a chance de ver de perto tudo o que a gente sempre viu nos livros na escola.
Pontos fracos: a falta de cuidado na preservação de prédios históricos e pontos turísticos. Com injeção de dinheiro da União Européia, a situação, aos poucos, vai melhorando, mas quem não fala português deve sofrer. No Palácio de Mafra, por exemplo, não havia visitas guiadas em inglês. Outro ponto fraco é a existência de algumas pessoas pouco receptivas com brasileiros imigrantes. Por isso sempre enfatize que você está lá a turismo, é garantia de sorrisos por onde você for.
Bola fora: fazer o passeio pela linha de trem que acompanha o rio Douro em março. O inverno já tinha terminado, mas a chuva não cessava. Prometemos que voltaremos em setembro, quando as parreiras estarão carregadas e a paisagem, ainda mais deslumbrante.
Você não pode perder: o pastel de Belém, o Caminho do Douro, as pequenas vilas de Trás-os-Montes, os bacalhaus, Évora, a graciosa Miranda do Douro (na divisa com a Espanha) e, obviamente, Lisboa e Porto, cada uma com sua beleza.
Você pode dispensar: uma visita ao Palácio Nacional de Sintra, pouco empolgante e didático. Dispense também a subida na Torre dos Clérigos, no Porto. O melhor jeito de apreciá-la é de fora mesmo. Ah, e por favor, não peça em restaurantes as tradicionais lulas grelhadas. São tão saborosas quanto uma borracha escolar.

2 Comments:
Mas fala aí Lu, vc que estava com saudade da nossa língua, quando vc começou a ouvir aquele sotaque, vc não achou que estava participando de uma grande piada???
Bjs
Gé
Gé
Pra te falar a verdade, senti mais vontade de rir na Itália, tudo parecia uma grande novela do Benedito Ruy Barbosa. Eu já estava acostumada com o sotaque lusitano, conheci muitos portugueses no Canadá.
Beijos
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