quarta-feira, agosto 31, 2005

A bunduda e o ócio


Essa a gente precisa contar! Esse cartaz foi colocado nesse pilar para divulgar o Rogers Cup, um torneio de tênis que aconteceu dias atrás aqui em Toronto. A bunduda da foto é a Serena Williams, em pose de morena do Tchan. Noite dessas, o Martim viu uma cena curiosa. Um homem, provavelmente apaixonado pela tenista, ficou abraçando essa coluna. Por pelo menos três minutos! Como se isso não bastasse, o sujeito começou a esfregar vocês sabem bem o quê na foto. Pena não termos essa imagem bizarra registrada, mas esta serve de lembrança.


Vi esta imagem numa sexta-feira ensolarada, enquanto voltava para casa. Um salão de cabeleireiros colocou este simpático cartaz na porta do salão para dizer que eles também são humanos e merecem um final de semana decente neste curto verão canadense. Tá aí algo que admiro muito nas pessoas daqui. Elas trabalham duro, mas valorizam os momentos de lazer. Nunca havia visto um salão de beleza fechar justo no final de semana, mas aqui o descanso é respeitado. Cartazes como esse pipocam nas portas dos estabelecimentos durante o verão. E viva o ócio!

terça-feira, agosto 30, 2005

Barba e cabelo

Fui cortar o cabelo hoje, pela terceira vez aqui no Canadá. O lugar aonde vou é uma biboca num bairro simples perto de casa, área de imigrantes africanos e asiáticos, principalmente. A tiazinha, que corta, faz escova, limpa, cozinha, assiste filme e fala no telefone ao mesmo tempo, deve ser vietnamita ou algo parecido, e cobra $8. Como em frente a nossa casa custa $18, não tenho dúvidas de caminhar as três quadras até o lugar.

Mas não é só pela economia que vale a pena ir lá. O lugar é uma confluência de gente de tudo quanto é lugar desfilando figurinos e hábitos estranhíssimos. Sempre volto de lá com alguma cena curiosa na cabeça. Pra começar, os negros, africanos ou não, têm um cabelereiro só para eles - um tiozinho grisalho, de boné, que fica fumando enquanto não chega ninguém. Chegam os caras lá e dão a instrução: máquina aqui e ali, faz o topo reto, rapa tudo, risca uns desenhinhos aqui na lateral, etc., e o cara manda ver.

Enquanto espero hora inteira a minha vez (isso com otimismo), passam árabes, paquistaneses, sudaneses, etíopes, filipinos, indianos e tudo mais por lá. Chegam famílias inteiras atrás do pai, todos cabisbaixos, as meninas com véus cobrindo a cabeça, algumas mulheres com véu no rosto. Chegam mulheres enormes falando alto, prontas pra dar um barraco, reclamando do atraso, da fila, do bonde, e comentando da separação da Jennifer Aniston e do Brad Pitt. Chega uma galera que só sabe pedir pra cabelereira cortar "curto", porque o inglês também é curto.

Hoje, chegou um velhinho asiático, de boné, meia e sandália, com uma sacola amassada de supermercado na mão e um tupperware dentro, cara de mal-humorado. Entrou e falou:
- Maumenhonhéiainhon, mé...
Achei que ele estava tentando começar a falar alguma coisa, ensaiando uma pergunta. Mas não, aquilo foi vietnamita, ou algo do gênero, porque a cabelereira respondeu de pronto:
- Nhónhé.

É um entra e sai de gente, todos se cumprimentam, perguntam do filho, do vizinho, da mãe, do cachorro que fugiu. É um daqueles salões de barbeiro nossos, com seus causos pitorescos. Divertido. E barato.

sábado, agosto 27, 2005

A mesma impressão

Outro dia estava conversando com duas amigas no ponto de ônibus, uma jornalista brasileira que está aqui há seis anos e uma psicóloga espanhola moradora de Toronto há pouco mais de um ano. A espanhola disse:
- Sabe uma coisa que não suporto? Esse jeito das canadenses falarem. São sempre as mesmas frases, faladas com o mesmo tom de voz, o mesmo jeito.
Comecei a rir com a observação dela porque tenho a mesma impressão. Quanto mais ela imitava a vozinha e o jeito um tanto artificial aos nossos olhos, mais eu ria. Enquanto o ônibus não vinha, ficamos enumerando as diferenças comportamentais que percebemos no dia-a-dia numa espécie de desabafo coletivo. Mas aí veio a voz da experiência.
- Também pensava muito nessas diferenças quando cheguei aqui. Mas agora, passados seis anos, eu já nem penso muito nisso. Já me acostumei, mas entendo vocês, isso é efeito desse choque cultural do começo, assegurou a brasileira, do alto de sua vivência com canadenses, entre eles, o marido dela.
Daqui a um tempo, sei que vou ler todos esses meus relatos com um sorriso contido no rosto. Vou me lembrar sempre da dor e da delícia que é viver um choque cultural na pele.

Chá de Bebê
A conversa acima descrita aconteceu na volta do Chá de Bebê da nossa amiga Meire. Foi o primeiro evento desse tipo que presenciei na minha vida. Já tinha ido a um Chá de Cozinha, mas jurei que nunca mais colocaria os meus pés em um encontro desses. Não quero ofender ninguém, mas acho essas festinhas uma insanidade coletiva, só perde para o momento mais constrangedor de um casamento, quando a noiva joga o bouquet e as mulheres protagonizam aquele show de horrores. Mesmo assim, fui ao Chá de Bebê porque sabia que seria especial, afinal de contas era da Meire.
Foi realmente uma experiência diferente. A festa foi nos moldes hispânicos, organizada por mexicanas e argentinas. Por isso, já comecei dando um fora. No Brasil, ouvi falar que as convidadas levam pequenos e úteis presentes, como chupeta ou escova de cabelos, e a mãe tenta adivinhar o que há dentro pacote. Como não me entregaram convite algum com o item que eu deveria levar, fui voluntariamente à farmácia e comprei uma chupeta. Quando cheguei ao local do encontro, me deparei com caixas e mais caixas de presentes caros e bonitos pela sala. Fiquei até com vergonha do meu pacotinho mixuruca e o enfiei na bolsa.
No quintal, vi a Meire, lindíssima com seu barrigão, poucas brasileiras e muita, muita gente falando espanhol numa confusão de sotaques mexicanos, argentinos, peruanos, chilenos e madrilenho. Havia brincadeiras sim, como no Brasil, mas não consistia em apenas adivinhar o presente. Era algo muito mais elaborado, parecia o Xou da Xuxa. Tinha dança das cadeiras, bingo e uma das provas mais esquisitas que eu já vi. Duas competidoras tentavam pendurar roupas num varal segurando um bebê de brinquedo e um celular na orelha. Quem terminasse primeiro o cesto de roupas ganhava. Insanidade pura, juro que nunca pensei que fosse participar de uma prova dessas!

Bizarrices no metrô
Toronto é uma cidade cheia de loucos e drogados, acho que já disse isso muitas vezes. Mesmo sabendo disso, às vezes me surpreendo com as cenas que vejo por aqui. Hoje me sentei em frente a uma senhora distinta, até bem vestida, apesar do colar de bolinhas cor-de-rosa que ela usava. Fiquei ali, observando as pessoas no vagão quando, de repente, a velhinha tira, satisfeita, um jornal da bolsa. Aí começou a bizarrice. Ela pegava um caderno inteiro do Toronto Star e rasgava as bordas das páginas, com um prazer indescritível. Começava pela parte de cima. Segurava com as mãos trêmulas cerca de 20 páginas e arrancava as extremidades brancas. Depois partia para a parte debaixo para, finalmente, rasgar as laterais. Sorridente, ela balançava a cabeça enquanto enfiava aquele monte de papel picado na bolsa, para espanto do vagão inteiro. Era difícil não prestar atenção naquela mulher porque, além de fazer barulho de papel rasgando, ela ainda gemia enquanto fazia aquilo com tanta destreza.
Seis estações depois, eu deixei o trem e aquela velhinha estranha para trás e fiquei me perguntando se isso é algum hobby de idosos ou se ela era mesmo doida. Pensei ainda numa terceira opção: seria ela mais uma desiludida com jornalismo?

Camisetas sem sentido
Uma coisa que sempre me chamou atenção é a mensagem escrita nas camisetas das pessoas. Desde que estava no Brasil, me perguntava o porquê de carregar no peito frases em inglês sem sentido ou, pior, com erros de grafia. Às vezes via palavras como "Baseball", "Skateboard" ou "Hot Summer"em roupas de gente que nem sabia o que isso quer dizer. Simplesmente usam porque acham bacana ter algo em inglês na vestimenta, um forte sintoma de país colonizado.
As piores são aquelas com mensagens de natureza, que, na maioria das vezes, não dizem nada. Uma vez vi uma blusinha bonitinha na Luigi Bertolli, mas não a comprei porque ela tinha uma mensagem hipócrita em inglês do tipo "Salve a Natureza". Isso mesmo, salvem a natureza, mas coloquem esta blusinha numa caixa de papel e numa sacola bem ecológicas. E viva o desperdício!
Pensei que essas frases em inglês sem sentido não estariam nas roupas daqui, afinal de contas, eles entendem o que está escrito. Mas mudei de idéia rapidinho. Imagino que as pessoas em qualquer lugar do mundo não dão a mínima para isso, assim como não ligam para letras de música. Cantam qualquer barbaridade sem pensar no que aquelas estrofes querem dizer.
Outro dia vi uma menina de traços asiáticos e cabelos negros com uma camiseta com a seguinte frase: "Blond Girls are So Hot", algo como "Garotas Loiras são muito quentes ou gostosas". Fiquei ouvindo a conversa dela com a amiga e sim, ela falava inglês, e muito bem. Concluí: ou ela tem atração por loiras ou não tem a menor idéia do que está escrito na camiseta dela. Vá entender...

quarta-feira, agosto 24, 2005

Fim de verão

E para quem andava com saudades de fotos neste blog, elas finalmente estão de volta!


Final de verão em Toronto é mais bonito que o ápice da estação mais quente do ano. Os termômetros marcam, no máximo, 27 graus, um alívio para esses dois brasileirinhos surpresos com o calor de julho no Hemisfério Norte. Aqui vai uma imagem linda da cidade registrada na nossa ida às ilhas do lago Ontario.


Uma foto da chegada, registrada do alto da balsa.


Deitados na grama, tentando alcançar o céu.


Enfim, a praia!


Não tem cheirinho de mar, mas já engana.


Além disso, tem uma CN Tower ao fundo!


Cai a tarde em Toronto. Hora de ir embora, de alma lavada!

sábado, agosto 20, 2005

O tempo

Já disse aqui uma vez que o tempo passa de um jeito estranho quando se está fora do Brasil. Quando você se dá conta, lá se foram 4 semanas e é hora de virar a folhinha do calendário. Em compensação, cada uma dessas semaninhas têm a intensidade de um mês. Deve ser o silêncio. Passamos muito tempo absortos em nossos pensamentos, lembrando das pessoas queridas, analisando comportamentos, pensando em questões sociais, questionando nosso futuro ou, simplesmente, com o olhar perdido na multidão que caminha no centro da cidade. Em casa, vejo TV sem me desligar desse olhar de estrangeira. De repente, percebo que as horas se passaram e eu nem prestei muita atenção no conteúdo do programa. Só fiquei atenta às frases, às palavras novas ou ao porquê daquele estúpido programa. Acho que gosto mais das propagandas que da programação normal, elas são muito mais divertidas e trazem, implicitamente, um pouco dos valores da América do Norte. Por exemplo, me dei conta que nunca havia visto tantos anúncios de carro como aqui e supus que isso deve ser fruto de uma sociedade endinheirada e fanática pelo maior símbolo de status da classe média.
E assim vai passando o tempo, sem pedir licença. Outro dia, me dei conta que completaremos 6 meses aqui dentro de uma semana. Sim, metade de um ano! Mesmo com tantos meses, ainda me sinto perdida, com muito para ver e aprender, mas felizmente, estou muito mais segura que há seis meses. Ah, como o tempo faz bem!

e o Vento

O outono já começa a dar sinais de vida. Os termômetros já indicam 12 graus de manhãzinha e 25 à tarde. Não está frio, mas o calor está bem mais ameno e as pessoas já surgem de mangas compridas e calças. E sabem o que eu descobri? Que eu prefiro a temperatura assim, entre os 15 e 25 graus. Nada de calor acima de 30, nem roupa grudando no corpo, cruz credo! Mas o que eu não gostei nada foi dessa chuva forte de hoje, que quase fez um lago na porta de casa. O curioso foi o vento forte que pegamos perto do lago Ontario. Por volta das 15h, o céu escureceu e quase saímos voando. Quando cheguei em casa, vi alertas de tornado na TV e, de fato, um resolveu assustar a região sul de Ontario. Sorte que este país é sem lead e quase nunca eles têm uma notícia apavorante, dessas dignas de letras garrafais. Nem quando um avião se espatifa aqui as pessoas morrem. O Canadá tem corpo fechado, para azar dos jornalistas sedentos de tragédias.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Sempre ele

O Chico Buarque está sempre nos meus pensamentos e no meu coração:

Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais

quarta-feira, agosto 17, 2005

Olhar de estrangeira recém-chegada

Hoje tive uma longa e interessante discussão com meu professor. Motivo: confessei a minha impressão, como estrangeira, sobre os canadenses no dia-a-dia. Acho-os entediados e apáticos, sempre fazem aquela cara de saco cheio de tudo. O Tyson, que é canadense, não gostou muito do meu ponto de vista, claro. Disse que qualquer pessoa fica mal humorada dentro de um metrô ou na correria para o trabalho às 7h da manhã e que eu não posso tirar esse tipo de conclusão em tão pouco tempo em Toronto.

Concordo com ele, de fato não posso concluir nada e nem é essa a minha intenção. Expliquei que essa é apenas uma sensação que carrego há algum tempo, mas que nunca havia comentado com um canadense. Queria saber qual era a opinião dele e ele disse que não havia o menor sentido nessa minha sensação, simplesmente o humor das pessoas varia ao longo do dia. E completou:

- Às vezes, a pessoa não gosta de se levantar cedo e fica mal humorada pela manhã, mas à noite, depois do trabalho, o humor dela muda num bar ou junto aos familiares.

Talvez ele tenha razão. No Brasil, não me lembro de ter visto ninguém às gargalhadas dentro de um ônibus parado na Paulista. Mas é aí que está o ponto, aqui, nem de longe, o trânsito é tão caótico. As pessoas não ficam duas horas dentro do carro para chegar às suas casas e nem ficam com os vidros fechados, com medo de parar no próximo farol. Aqui há parques por todos os lados, um lago imenso e lindo para se passear no final da tarde e um ar bem mais limpo para se respirar. Ninguém se depara com uma criança de rua ou sente na pele a dor da desigualdade social. Então me expliquem: por que a falta de sorrisos?

Não estou dizendo que não gosto dos canadenses, pelo contrário. São muito simpáticos, prestativos e educados. Mas falta aquele calor, aquele ar de esperança. Eles são amáveis, mas à maneira deles. De repente, eles dão um corte surpreendente e nos deixam meio sem rumo. A gente até pensa, "nossa, será que falei algo errado?", mas não, a gente apenas chegou ao limite de uma outra cultura.

Tento não comparar, mas às vezes é difícil. Sem querer, a gente começa a procurar características da nossa terra, aqui, como se isso fosse viável. Talvez eu esteja sob o efeito da distância, idealizando o comportamento otimista do brasileiro, como se esse jeito alegre não tivesse um lado ruim, esse de relevar tudo e ir levando. "Ah, tudo bem, o importante é que o feriadão está chegando." E tudo fica assim, alegremente estagnado. Que se dane a greve do ônibus, a CPI ou a rebelião na Febem. "A gente resolve isso semana que vem." E lá vai todo mundo entupir as estradas.

Tudo não passa das manjadas (e verdadeiras) diferenças culturais, nada além disso. A gente aprende a se adaptar, dependendo dos valores que a gente tem numa determinada etapa da vida. Uma vez, minha mãe me disse que não é o lugar que faz uma pessoa feliz. É verdade. Passei 28 anos da minha vida num país lindo e caótico e sempre fui muito feliz. É a gente que faz o lugar onde vive.

Por outro lado, há alguns pontos que pesam mais ou menos para te ajudar na sua adaptação.

Se para você é mais importante:
  • andar tranquilamente pelas ruas
  • ver seus impostos sendo aplicados no bem comum
  • ter transporte público de qualidade
  • ter um salário mais polpudo
  • ver Justiça sendo feita, inclusive dando aos gays o mesmo direito de qualquer heterossexual
  • ter acesso facilitado à educação, cultura e esportes
  • contar com serviço médico gratuito (ainda que demore)
  • ter parques por todos os lados
  • poder optar por não ter carro (e não morrer com essa decisão)
  • ver idosos e deficientes físicos sendo respeitados
    SEU LUGAR É O CANADÁ

    Mas se para você é mais importante:
  • viver num país de clima perfeito
  • ver alegria por toda a parte, mesmo que sem motivo
  • comer comida fresca e boa
  • ter praias e paisagens paradisíacas pertinho, pertinho
  • ir a festas de verdade
  • ver e ouvir manifestações culturais com identidade própria
  • acompanhar e jogar um bom futebol
  • ter um baixo índice de suicídio e a ausência de paranóias
  • contar com a latente veia criativa de um povo
  • não ver tantos loucos e drogados pelas ruas
    SEU LUGAR É O BRASIL

    Tudo você não vai ter. E não adianta reclamar. Muitos canadenses amariam ir de mala e cuia para o Brasil para passar o resto de seus dias por lá. Conheço um que sonha com a idéia de morar em Floripa, mas a namorada dele, que é brasileira, nem cogita a possibilidade de largar tudo o que já conquistou aqui para voltar à terra natal. Não há certo nem errado, só diferentes objetivos de vida.

  • segunda-feira, agosto 15, 2005

    Serviço de mudanças

    Já podemos abrir uma empresa de mudanças aqui no Canadá. Depois de termos comprado o laptop, começou a faltar lugar em casa para acomodá-lo. O bichinho ficava zanzando pra lá e pra cá, divindindo espaço com o café da manhã na mesa da cozinha, ou descansando em cima da caixa de papelão da embalagem. Cheia dessa situação (e sempre com idéias criativas), a Marta quis fazer uma surpresa e saiu atrás de uma mesa de segunda mão. Achou uma logo de cara, legalzinha, com gavetas, numa loja de coisas usadas a 3 quadras de casa. Toda feliz com a descoberta, ela só parou quando pensou que teria que levar o treco sozinha.
    Chamu um táxi, perguntou se ele podia carregar uma mesa, mas o cara desistiu quando viu o tamanho da criança. Aí, não teve dúvida: com a mesma cara de pau que nos possibilitou tirar fotos com o Micheal Douglas no quintal dos fundos, ela torrou a paciência de todos os funcionários da loja até que eles emprestaram o carrinho de supermercado que usavam para fazer o estoque e empurrou a mesa até em casa, sob os olhares discretos, mas inquisitivos dos passantes. Aqui, um vizinho muito legal ajudou a trazer o móvel para o nosso quarto (o que prova que, além de tudo, a Marta é muito sortuda).
    Essa já é a terceira vez que cruzamos a cidade fazendo serviço de carregadores. Primeiro, pegamos o metrô com uma mesa e duas cadeiras. Depois, carregamos um colchão de casal rua acima (com a Marta sofrendo com o peso das molas, tadinha). Por isso não soa tão mal essa mudança de carreira... rs.

    Adolescentes
    Adolescente é igual em todo lugar. Ontem à noite, um molecão de seus 17 anos, com testosterona saindo pelos poros, parou um amigo brasileiro, do meu lado, com a seguinte proposta: "meu, pelamordedeus, você tem que me ajudar, pega esse celular aqui e fala com o pai da fulaninha (apontando pra dita cuja a alguns metros), diz que você é o pai da sicraninha e que você deixa a fulaninha ficar na sua casa, em segurança (e longe de moleques safados de 17 anos), só tem que falar que ela vai dormir na sua casa hoje, é facil, por favor!!!". Meu amigo respondeu que não podia, que mal falava inglês pra ser suficientemente convincente. Não contente, o cara olhou pra mim, mas eu já fiz uma cara desanimadora. Inconformado, o carinha parou o próximo cara que viu pela frente. O desespero era tanto que a fulaninha também entrou nas tratativas. Já me pediram muita coisa na rua aqui, mas esse tipo de coisa foi a primera vez...

    sexta-feira, agosto 12, 2005

    Choramingando

    Detesto choramingar, mas ando com tantas saudades da familia e dos amigos. Tenho fotos aqui para matar as saudades e agora temos o computador em casa para ficar mais perto das pessoas amadas, mas as vezes e duro demais ficar longe!

    Choramingando parte II

    Sinto saudades de voces, mas nao tenho saudade alguma das manchetes dos jornais. Cada vez que abro a capa do UOL para acessar o e-mail levo um susto. O ultimo foi propiciado pelo Duda Mendonca, que jogou tudo no ventilador, de verdade.
    Assistimos ao discurso de um Lula enfraquecido e que se diz traido. Ficamos desolados em frente a tela do computador, enquanto viamos nosso presidente lendo, com desenvoltura de uma crianca do primario, um discurso tucano que chovia no molhado.
    Dizer que estamos decepcionados seria pouco. Acho que a palavra que mais se aproxima do que sinto e magoa. Estou magoada com esse governo e no meu limite da falta de esperanca. Nao sei como e estar ai, sendo bombardeado por noticias cabeludas durante todo o dia, mas posso dizer que assistir a tudo isso de fora do Brasil e bastante doloroso. Da uma sensacao horrorosa de impotencia e desanimo e vem a inevitavel pergunta: vale a pena voltar?

    Outro desabafo

    As vezes penso que as coisas estao mudando, mas rapidamente levo um tombo. Outro dia ouvi a seguinte perola de uma brasileira que esta aqui ha mais de 1 ano.
    - O problema de Toronto e essa mistura de racas. Tem gente de todo o mundo, esses negros, esses muculmanos... e por isso que esta aumentando a criminalidade.
    Juro, quase mandei aquela anta tomar naquele lugar. Como pode, uma brasileira, fruto da miscigenacao, dizer uma bobagem dessas assim, como se estivesse falando do tempo? Nem um alemaozao teria direito de pronunciar algo assim, imagine alguem do Brasil?
    Eu nao sou muito de bater boca, as vezes ouco umas opinioes muito absurdas, (especialmente de malufistas, homofobicos, reacionarios e mal resolvidos) e me seguro para nao comprar briga. Mas as vezes e impossivel ficar quieta com alguem defendendo qualquer preconceito, assim, com a cara mais deslavada do mundo.
    Outra coisa que me tira do serio e escutar alguem dizer:
    - Ah, bom mesmo era no tempo da ditadura!
    Uma vez quase sai na mao com o porteiro do jornal onde trabalhava quando ele soltou essa perola. Sou calma, mas nem tanto.

    quinta-feira, agosto 11, 2005

    Natal em agosto

    Estamos euforicos. Depois de mais de um mes de espera, finalmente temos nosso computador em casa. Voces nao imaginam a alegria que sentimos quando os caras da UPS fizeram a entrega, parecia noite de Natal. O Martim, que sempre foi chegado em manuais de instrucoes e todas essas coisas complicadas, foi o responsavel pela abertura da caixa e pela configuracao. Eu serei a encarregada de dar um jeito de tirar esse laptop do sofa e organizar a casa. Nao da para deixar o pobrezinho largado no meio da bagunca depois de tanta dor de cabeca para recebe-lo.
    Compramos nosso novo bichinho de estimacao no dia 4 de julho pela internet e o recebemos no dia 9 de agosto. Isso e que entrega rapida! Mas tudo bem, agora isso e pagina virada. Depois de muita briga, fax, e-mail e doses cavalares de musiquinhas insuportaveis de espera no telefone, finalmente temos o nosso laptop.

    Passar uma tarde em Toronto, ao sol que arde em Toronto...

    Outra boa noticia e que finalmente tivemos uma tarde so nossa. E depois de quase cinco meses em Toronto, pegamos a balsa pela primeira vez rumo a ilha que fica ao sul da cidade. Adoramos a vista, a prainha do Lago Ontario, as criancas brincando, a grama macia e a sombra fresquinha embaixo da arvore onde nos espreguicamos ao som de Marisa Monte. Foi um dia perfeito! Assim que acharmos o cabo da camera (nao sabemos onde foi parar), vamos publicar as fotos.

    Novo passatempo

    A minha nova distracao enquanto caminho pelas ruas do nosso bairro e escolher a casa onde gostaria de morar. Faco um ranking das mais bonitas, das mais feias, das com criatividade zero ou as com jardins descuidados. Fico ali, me divertindo, mas sempre tomo o cuidado de usar oculos escuros na hora de bisbilhotar a propriedade alheia. Se um morador mais atento percebe que estou xeretando a sala dele, me faco de louca e comeco a sacudir a cabeca com os fones de ouvido.
    Acho que eu gosto de decoracao, estou me dando conta disso de uns tempos pra ca. O Martim sempre me incentiva a fazer um curso, mas nao estou certa se isso seria um trabalho ou um hobby. Por enquanto estou me focando em assuntos mais praticos (exceto o flamenco), mas nao descarto a possibilidade de me aprofundar mais no assunto, nem que seja apenas para decorar nossa casinha. Quem sabe um dia eu nao vou rir de uma abelhuda espiando a sala da nossa casa.

    sábado, agosto 06, 2005

    Será que estou menos mulherzinha?

    Vocês já entraram em uma loja e sentiram vontade de comprar tudo? Eu já, especialmente na Mango do Shopping Eldorado ou na Terra Madre da Benedito Calixto. Ficava atordoada com as peças lindas e os preços altos e, em 99% das vezes, acabava saindo de mãos vazias.
    A verdade é que sempre fui meio mão de vaca na hora de fazer compras. Raramente tenho acessos de loucura, talvez eles aconteçam uma vez por ano, quando um produto me entorpece. Foi assim com o relógio que comprei na Swatch do Shopping Paulista. Eu bem que relutei após ter me deparado com aquela edição especial de flamenco, mas não resisti. Em poucos minutos lá estava eu, feliz da vida com meu novo mimo no pulso, sem a menor culpa.
    Mas como disse, episódios assim são escassos na minha vida. Geralmente pondero, me pergunto se realmente preciso daquele produto e, principalmente, se serei extorquida, especialmente quando o assunto é vestuário. Depois de passar anos na confecção da minha mãe, um coisa eu posso assegurar: o mundinho fashion é uma grande enganação. Sim, há estilistas talentosos e modelagens incríveis. Existem tecidos deliciosos e estampas lindíssimas, mas nada, absolutamente nada, justifica os preços absurdos cobrados. A oficina da minha mãe produziu muito para grandes marcas como Cori, G e Reinaldo Lourenço e, de fato, o corte das peças é perfeito, mas repito, sabendo do preço de custo: quem se sujeita à tabela das lojas famosas apenas está financiando a Jacuzzi alheia. A margem de lucro é estrondosa e as peças saem de confecções terceirizadas e das mãos de trabalhadoras humildes, sem glamour algum.
    É por essa e por outras que não me deslumbro com a etiqueta presa nas roupas ou com o papel de seda dentro da caixa de presentes. Acho um escândalo pagar mais que R$ 100 num jeans num país como o Brasil e entupir o armário de peças da moda que sequer caem bem na pessoa. Quando era adolescente, a história era diferente, claro. Andava com tiarinhas da Pakalolo e achava o máximo ter uma calça com aquele raiozinho da Zoomp. Felizmente o tempo (sempre ele) me livrou da calça bag, das camisetas da Print Rip e da idéia cretina que só é feliz quem tem o guarda-roupa abarrotado de bobagens da moda. Mas agora sofro de outro mal: o de não conseguir comprar.
    Parece bizarro, ainda mais vindo de uma mulher, mas é a mais pura verdade. Sinto isso já faz um bom tempo e a coisa piorou com os preparativos para a vinda para o Canadá. Só pensava em objetos práticos e corte de gastos, não via o menor sentido em comprar uma blusinha para o verão 2004-2005. Aos poucos, fui percebendo que as vitrines passaram a ter tanto efeito sobre mim quanto o de uma borracharia ou uma loja de escapamentos. Eu, que nunca fui muito chegada a passeios em shoppings centers, de repente me perguntei: meu Deus, será que estou virando homem?
    Ontem fiz uma tentativa a conselho do Martim. Fui a uma lojinha bonitinha e descolada perto de casa para ver se achava algo. Música moderninha, vendedoras se achando na passarela, roupas bacanas, preços razoáveis e nada! Não senti vontade de levar uma pecinha sequer para o provador. Hoje tentei novamente, desta vez numa loja de sapatos, mas a experiência foi mal-sucedida.
    Esse mal que me aflige piorou desde que empacotei minhas coisas para desocupar o apartamento onde morávamos. Quando vi a quantidade de roupas, bolsas e sapatos que acumulei nos últimos anos, me questionei se havia algum sentido naquilo tudo. Tá bom, eu sei que um sapato novo tem um efeito incrível sobre a alma feminina, mas tantos assim só podem ser sinal de uma pessoa tomada pela inércia consumista e sedenta desses tais efeitos incríveis.
    Não entendo para quê comprar mais tendo tanto para carregar e não vejo motivo para acumular tendo tantos lugares, pessoas, cheiros e gostos para conhecer. Será que estou mais masculina ou meu espírito ficou mais nômade?

    quarta-feira, agosto 03, 2005

    Curtas, rapidas, ligeiras

    Pressionado pela Marta a escrever, resolver ceder. Nao e' que tenha nada contra o blog, mas sempre que penso em escrever, penso em temas complicados, quase devaneios, que levam tempo pra tomar uma cara e mais ainda para publicar. Entao decidi fazer alguns comentarios breves:

    - Ontem, um aviao da AirFrance se esborrachou na pista do aeroporto de Toronto, mas todos os 309 passageiros sairam vivos e bem. Os reporteres, todos com coceira para fazer uma cobertura de verdade, grandiosa, cheia de detalhes suculentos e dramas pessoais, sairam catando tudo quando e' gente que aparecia pela frente para saber o que aconteceu. A CBC (a versao canadense e seria da CNN) entrevistou 25 passageiros, o chefe da policia local, o bombeiro, o meteorologista, o empilhador de bagagem, o vizinho do aeroporto, a tiazinha do balcao de informacoes, todo mundo. Todas conversas de mais de 5 minutos, interminaveis, no desespero de conseguir algum detalhe mais interessante. Descobriram que 43 dos 309 tiveram "ferimentos leves". Hoje, entao, a reporter insistia com o chefe do resgate: "mas essas 43 pessoas estao bem?". Sim, estavam, respondia ele. "Mas 'ferimentos leves' quer dizer o que?". Era para pensar em como as pessoas ficam depois de um acidente de carro, explicou o cara. "Mas isso inclui arranhoes?", tentou a moca. Sim, respondeu o homem. "Mas e ossos quebrados? Nenhum osso quebrado? Estou perguntando porque temos que saber exatamente a extensao do ferimentos dessas pessoas e como elas sofreram isso". E'... todo mundo vivo e a mulher querendo saber de osso quebrado... Vida de jornalista tambem e' dura aqui.

    - Descobri que o Tinoco (do falecido Tonico) fara' um show "espectacular" (segundo o cartaz) aqui em Toronto. Bem, na verdade, em Mississauga, uma Barueri torontense. O anuncio diz em letras ao estilo faroeste: Tinoco, 70 anos de carreira, do Brasil, no coracao do povo. Ouvi um boato de que na "equipe" do show vem mais de 50 carinhas ilegais, que teriam pagado modicos R$ 10 mil pra serem incluidos como "eletrecista", "engenheiro de som", "auxiliar de aspone" e poderem "imigrar" pro Canada'. Vai saber.

    - Nessa segunda, feriado aqui no Canada', ajudei os amigos Meire e Mario a fazerem a mudanca deles (em retribuicao 'a ajuda que eles deram na nossa mudanca). No fim do dia, um churrasco promovido pelo amigo argentino deles (excelente, diga-se de passagem) e um bate-bola com chilenos, argentinos e brasileiros no quintal da casa do cara. Pensei comigo que, aqui, so' numa casa de latino-americanos consigo bater uma bolinha e ser compreendido quando digo que adoro futebol. Ha' umas 3, 4 semanas, fiquei vendo Canada' e Cuba, pela Copa Ouro, na TV. Os canadenses precisavam vencer por 3 gols de diferenca pra se classificarem pra segunda fase, pois tinham perdido pra Costa Rica e EUA. Ganharam de 2 a 1, foram eliminados. Foi um jogo horroroso. E tambem a ultima vez que vi futebol na TV. De la' pra ca', eles so' passaram os tradicionais beisebol, golfe e futebol americano. Ate' campeonato de poker passam. Mas futebol, nada.