sábado, agosto 27, 2005

A mesma impressão

Outro dia estava conversando com duas amigas no ponto de ônibus, uma jornalista brasileira que está aqui há seis anos e uma psicóloga espanhola moradora de Toronto há pouco mais de um ano. A espanhola disse:
- Sabe uma coisa que não suporto? Esse jeito das canadenses falarem. São sempre as mesmas frases, faladas com o mesmo tom de voz, o mesmo jeito.
Comecei a rir com a observação dela porque tenho a mesma impressão. Quanto mais ela imitava a vozinha e o jeito um tanto artificial aos nossos olhos, mais eu ria. Enquanto o ônibus não vinha, ficamos enumerando as diferenças comportamentais que percebemos no dia-a-dia numa espécie de desabafo coletivo. Mas aí veio a voz da experiência.
- Também pensava muito nessas diferenças quando cheguei aqui. Mas agora, passados seis anos, eu já nem penso muito nisso. Já me acostumei, mas entendo vocês, isso é efeito desse choque cultural do começo, assegurou a brasileira, do alto de sua vivência com canadenses, entre eles, o marido dela.
Daqui a um tempo, sei que vou ler todos esses meus relatos com um sorriso contido no rosto. Vou me lembrar sempre da dor e da delícia que é viver um choque cultural na pele.

Chá de Bebê
A conversa acima descrita aconteceu na volta do Chá de Bebê da nossa amiga Meire. Foi o primeiro evento desse tipo que presenciei na minha vida. Já tinha ido a um Chá de Cozinha, mas jurei que nunca mais colocaria os meus pés em um encontro desses. Não quero ofender ninguém, mas acho essas festinhas uma insanidade coletiva, só perde para o momento mais constrangedor de um casamento, quando a noiva joga o bouquet e as mulheres protagonizam aquele show de horrores. Mesmo assim, fui ao Chá de Bebê porque sabia que seria especial, afinal de contas era da Meire.
Foi realmente uma experiência diferente. A festa foi nos moldes hispânicos, organizada por mexicanas e argentinas. Por isso, já comecei dando um fora. No Brasil, ouvi falar que as convidadas levam pequenos e úteis presentes, como chupeta ou escova de cabelos, e a mãe tenta adivinhar o que há dentro pacote. Como não me entregaram convite algum com o item que eu deveria levar, fui voluntariamente à farmácia e comprei uma chupeta. Quando cheguei ao local do encontro, me deparei com caixas e mais caixas de presentes caros e bonitos pela sala. Fiquei até com vergonha do meu pacotinho mixuruca e o enfiei na bolsa.
No quintal, vi a Meire, lindíssima com seu barrigão, poucas brasileiras e muita, muita gente falando espanhol numa confusão de sotaques mexicanos, argentinos, peruanos, chilenos e madrilenho. Havia brincadeiras sim, como no Brasil, mas não consistia em apenas adivinhar o presente. Era algo muito mais elaborado, parecia o Xou da Xuxa. Tinha dança das cadeiras, bingo e uma das provas mais esquisitas que eu já vi. Duas competidoras tentavam pendurar roupas num varal segurando um bebê de brinquedo e um celular na orelha. Quem terminasse primeiro o cesto de roupas ganhava. Insanidade pura, juro que nunca pensei que fosse participar de uma prova dessas!

Bizarrices no metrô
Toronto é uma cidade cheia de loucos e drogados, acho que já disse isso muitas vezes. Mesmo sabendo disso, às vezes me surpreendo com as cenas que vejo por aqui. Hoje me sentei em frente a uma senhora distinta, até bem vestida, apesar do colar de bolinhas cor-de-rosa que ela usava. Fiquei ali, observando as pessoas no vagão quando, de repente, a velhinha tira, satisfeita, um jornal da bolsa. Aí começou a bizarrice. Ela pegava um caderno inteiro do Toronto Star e rasgava as bordas das páginas, com um prazer indescritível. Começava pela parte de cima. Segurava com as mãos trêmulas cerca de 20 páginas e arrancava as extremidades brancas. Depois partia para a parte debaixo para, finalmente, rasgar as laterais. Sorridente, ela balançava a cabeça enquanto enfiava aquele monte de papel picado na bolsa, para espanto do vagão inteiro. Era difícil não prestar atenção naquela mulher porque, além de fazer barulho de papel rasgando, ela ainda gemia enquanto fazia aquilo com tanta destreza.
Seis estações depois, eu deixei o trem e aquela velhinha estranha para trás e fiquei me perguntando se isso é algum hobby de idosos ou se ela era mesmo doida. Pensei ainda numa terceira opção: seria ela mais uma desiludida com jornalismo?

Camisetas sem sentido
Uma coisa que sempre me chamou atenção é a mensagem escrita nas camisetas das pessoas. Desde que estava no Brasil, me perguntava o porquê de carregar no peito frases em inglês sem sentido ou, pior, com erros de grafia. Às vezes via palavras como "Baseball", "Skateboard" ou "Hot Summer"em roupas de gente que nem sabia o que isso quer dizer. Simplesmente usam porque acham bacana ter algo em inglês na vestimenta, um forte sintoma de país colonizado.
As piores são aquelas com mensagens de natureza, que, na maioria das vezes, não dizem nada. Uma vez vi uma blusinha bonitinha na Luigi Bertolli, mas não a comprei porque ela tinha uma mensagem hipócrita em inglês do tipo "Salve a Natureza". Isso mesmo, salvem a natureza, mas coloquem esta blusinha numa caixa de papel e numa sacola bem ecológicas. E viva o desperdício!
Pensei que essas frases em inglês sem sentido não estariam nas roupas daqui, afinal de contas, eles entendem o que está escrito. Mas mudei de idéia rapidinho. Imagino que as pessoas em qualquer lugar do mundo não dão a mínima para isso, assim como não ligam para letras de música. Cantam qualquer barbaridade sem pensar no que aquelas estrofes querem dizer.
Outro dia vi uma menina de traços asiáticos e cabelos negros com uma camiseta com a seguinte frase: "Blond Girls are So Hot", algo como "Garotas Loiras são muito quentes ou gostosas". Fiquei ouvindo a conversa dela com a amiga e sim, ela falava inglês, e muito bem. Concluí: ou ela tem atração por loiras ou não tem a menor idéia do que está escrito na camiseta dela. Vá entender...

1 Comments:

Blogger Drica <* *> said...

Adoro suas descricoes... e rachei o bico ao ler sua experiencia no cha de bebe da sua amiga. Bom saber que esta se adaptando bem por aih? Quando quiser venha me visitar... Somos quase vizinhas hehe. Bejitoss da Drica <* *>

3:00 PM  

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