Aos trancos e barrancos (mas feliz)
Em um mês e meio no Brasil, não fizemos muita coisa, mas conquistamos uma respeitável lista de enfermidades: três gripes, uma caxumba, dores de garganta e crises de rinite alérgica. O mais incrível é que estamos comendo bem sim, senhor. Estamos nos esbaldando em feiras e sacolões e arrasando no cardápio natureba. O problema, meus caros, é outro.
"Acho que vocês chegaram no pior período em muitos anos", disse o otorrino que nos atendeu hoje. "A qualidade do ar está péssima, vocês só não sofreriam se tivessem vindo da Cidade do México."
Fiquei pensando no incrível poder de adaptação do nosso organismo. De repente, meu corpo muda e não aceita as condições do meu próprio país. Eu, que vivi 28 anos aqui, agora me sinto uma gringa que estranha tudo. Sei que muita gente que não pôs os pezinhos pra fora de São Paulo também anda sofrendo com o ar seco e a poluição, mas acho que o impacto disso tem sido desproporcional para esses dois ex-viajantes.
Também pesa o fator emocional nessa história toda, mas isso rende muita lamúria, o que torna este blog um pé no saco, então falemos de outras coisas.
Inverno tropical
Quando estava em Toronto, jurei que nunca mais reclamaria do frio em São Paulo, mas chegando aqui, mudei de idéia. Voltando ao tema "adaptação do organismo", vi que a gente se acostuma rapidamente com a média de temperatura local e, de repente, se vê encolhido em São Paulo com a ridícula temperatura de 12 graus. Quando vejo as pessoas passeando de cachecol pelas ruas, penso nos canadenses que andariam, tranquilamente, de camiseta. Fico no meio termo. Não vejo necessidade alguma de usar cachecol, mas também não ando de manga curta com aquele ventinho à noite.
É tudo muito esquisito, acho que ainda vai demorar para essas comparações se dissiparem da minha mente.
Vida de Amélia
Como as comparações são inevitáveis, aqui vai mais uma. A vida de Amélia aqui no Brasil é muito mais ativa. Em São Paulo, um dos motivos é a poluição, que deixa tudo coberto por uma camada de pó em um ou dois dias. Em Toronto, uma cidade também relativamente poluída, as janelas passam a maior parte do tempo fechadas (isso quando abrem), impossibilitando a entrada da fuligem.
Outra diferença é a história de passar roupa, essa tortura para qualquer coitado que preza o seu tempo. No Canadá, nossas roupas saíam miraculosamente desamassadas da secadora, tornando o ferro de passar um badulaque inútil no armário. Já aqui, não tem jeito! Até lençol vira uva-passa! E vocês pensam que a gente passa lençol? A gente não passa nem calça, meus caros, não estranhem nosso aspecto de quem acaba de sair da cama.
Os dois exemplos citados acima são bem simples, mas explicam o porquê de se passar tanto tempo em tarefas domésticas absolutamente detestáveis. Mas há algo que pesa ainda mais nessa amelice brasileira: herança colonial. Nada muito racional explica todo o esmero de uma brasileira para cuidar da casa. Não entendo pra quê uma criatura gasta tempo dando brilho no chão e nas panelas. Não sei por que os vidros TÊM de estar impecáveis e a casa, com cheiro de desinfetante o tempo todo. Isso só era justificável em residências de nobres que usavam escravos para esse trabalhinho morfético, mas esse traço ficou em todos nós sabe Deus por que. Como o custo da mão-de-obra no Brasil continua risível, as pessoas ainda se dão o luxo de reclamar do cantinho com marcas de dedos na cristaleira. Cá entre nós, esse capricho todo é uma insanidade! Não precisa chegar ao ponto do Canadá, onde, em muitos lugares, não é possível enxergar através do vidro, mas pirar com manchinhas é demais. Dá licença que eu tenho mais o que fazer!

1 Comments:
aos trancos e barrancos... rsss
Você nem imaginaria sozinha o quanto adoro roupas que despensam o ferro de passar...Há anos que o ferro só é usado em casa nas roupinhas da Lulu...
Meu guarda roupa está cheio de peças de tecido frio !
Tempo tão curto até pra cuidar de mim, mas o tempo da minha Lulu é preciosissimo, ela está crescendo muito rápido !
bjs bjs
patipetista
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