quinta-feira, agosto 10, 2006

Fim do silêncio

Ao som de Piazzolla, finalmente dou sinal de vida depois de semanas de silêncio. Nada mais apropriado para a trilha sonora deste momento. Nossa readaptação por aqui não tem nada de samba feliz. Tudo tem sido um tango, como na cena da corrida desesperada de Ariel no filme "O Abraço Partido".

Hoje, conversando com minha irmãzinha Raquel, ela tentava me acalmar, citando exemplos de amigos que ficaram "diferentes" depois da vida fora do Brasil. É verdade, a gente fica esquisito, às vezes me pergunto se fui abduzida por ETs num disco-voador. Não vejo mais a mesma Marta, nem vejo o mesmo Brasil.

Sei que isso parece assustador, mas acho que é a melhor maneira de explicar o que eu e talvez muitos dos seus amigos "esquisitos" sentem ao pisar novamente por aqui. O olhar fica perdido, a conversa fica em tópicos e o silêncio faz uma força enorme para aparecer. Eu driblo, driblo e driblo, mas não há como negar: às vezes há um estranhamento no ar.

É difícil admitir isso tudo que estou contando. É doloroso perceber que você é uma peça desencaixada, desnorteada, sem saber até mesmo se quer se encaixar novamente. Por outro lado, estar fora da engrenagem é uma chance magnífica de enxergar as coisas de uma perspectiva, nem sempre nova, mas que causa até graça. As bobagens de classe média são as minhas favoritas. O exército de deslumbrados que faz pose em centro de compras e finge não estar em um país de Terceiro Mundo é de rolar de rir. Parece que todos saíram de uma novela do Manoel Carlos, onde todo mundo é rico e mora na Zona Sul. É essa gente que paga R$ 500 numa calça, mas chia para dar um aumento ridículo para a diarista que recebe salário-mínimo. É essa pequenez de vilã caolha de novela mexicana que me causa gargalhadas em momentos de bom-humor e ódio profundo nos piores dias.

Na verdade, nenhuma dessas impressões é nova, só ficaram mais reforçadas e isso me preocupa. Não quero ficar excessivamente crítica, mas confesso que essa tarefa não tem sido fácil. Há aberrações por todos os lados, especialmente aqueles que se fecham na tarefa diária de olhar para o próprio umbigo. "Ai, amiga, vou comprar um sapato novo e fingir que nada está acontecendo. Eleições? Crianças de rua? Buraco no asfalto? Ah, isso não é problema meu."

Amigos queridos, me desculpem pela aspereza deste post e pelo olhar distante de vez em quando. Ainda vou me curar, quem sabe um dia eu até ache São Paulo uma cidade bonita.

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Tomara Lú que um dia vc ache São Paulo uma cidade bonita não porque tenha perdido o bom senso, mas por que de fato ela tenha ficado assim!!!

Um beijo

9:22 PM  
Blogger Manuman said...

Tenho acompanhado o blog desde a saída de vcs do Canadá. Encontrei-o nas pesquisas sobre o país, pois tenho em curso o processo de imigração para Quebéc. Mesmo não sendo fonte da informação que procurava, virei leitor pelo encanto das palavras que escrevem. A aventura, mundo afora, me encheu de coragem e de inveja - uma inveja do bem, fique bem dito - a excitação de conhecer o mundo é ingavelmente deliciosa. Porém, sou um brasileiro apaixonado pelo país e portanto triste como você com todas as páginas do jornal diário. Até com as boas, pois me soam cada vez mais hipócritas. Os motivos que me fizeram optar pela imigração ficam pra uma outra conversa, aqui quero apenas assinar o seu post, como que criando um abaixo assinado, que não resolve nada, mas que é um desabafo que queria eu mesmo ter escrito.
Abraços,
Emanuel Senna
Niterói - Rio de Janeiro

8:26 AM  
Blogger Dani Noyori (ou Nóia para os íntimos) said...

"Estranhamento". Você conseguiu resumir tudo o que AINDA se passa comigo, neguinha. Sério. E o mais engraçado é outra passagem do post: "doloroso perceber que você é uma peça desencaixada, desnorteada, sem saber até mesmo se quer se encaixar novamente". Porque às vezes eu não quero MESMO fazer parte de algumas coisas. Mesmo que essas coisas tenham feito parte do meu passado.

Bom, não sei se eu estava na lista dos esquisitos, mas confesso, também com pesar, que me sinto como tal.

Um beijo pra vocês (um dia a gente marca uma cerveja só com os estranhos. pelo menos o silêncio nem vai nos incomodar tanto, já que estamos ficando quase acostumados, hehehe)

1:55 PM  

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