domingo, dezembro 10, 2006

Férias das férias

Para quem não sabe, estamos de férias das nossas viagens há alguns meses. Por isso, estamos inaugurando a nossa fase na fronteira.

http://casafrontera.blogspot.com

Aos que acompanharam este blog de viagens, nossos agradecimentos e a torcida para que ele seja reativado em breve com novas histórias pelo mundo.
No menu à esquerda, vocês encontram os arquivos de todo o nosso tempo fora do Brasil.

Beijos, abraços e apertos de mão.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Retrospectiva 14: República Tcheca


A velha prefeitura com seu relógio astronômico é uma das atrações. Mais fotos aqui



Praga, capital da República Tcheca, parece ter saído dos livros de fábulas. Tudo é lindo, colorido e bem preservado. Um castelo imponente, que começou a ser construído no século 9, espia do alto de uma colina a cidade cortada pelo rio Vltava. As ruas estreitas e impecáveis mantêm o charme e a melancolia, apesar das hordas de turistas que lotam a cidade.

Para completar o cenário de conto de fadas, sininhos tilintam de hora em hora quando todos se rendem à graça do relógio astronômico, que fica em uma das torres da antiga prefeitura. Um boneco representando a morte aciona um carrilhão por onde desfilam bonecos de 12 apóstolos seguindo São Pedro. A engenhoca, construída em 1410, arranca aplausos, assobios e flashes da multidão.

O encanto exercido sobre os visitantes é inevitável. A cidade celebra seu renascimento cultural e seduz amantes de música clássica com concertos em igrejas e palácios. Mas toda essa beleza não é a maior lembrança que guardamos. Nas nossas mentes, Praga ficou marcada como o lugar onde nossos pavios ficaram bem curtos.

Quem viaja, sabe. Por mais que tentemos manter o bom-humor, a tolerância um dia se esgota. É quando os sorrisinhos cessam e a gente pára de compreender a situação alheia feito monge tibetano. Foi exatamente isso que aconteceu após cinco meses de estrada e muitos sapos engolidos. Estávamos cansados.

Para piorar, os tchecos não eram muito diferentes dos húngaros. Onde quer que a gente fosse, a presteza e atenção deles era digna de atendente do Detran. Repetiam as frases em inglês sem levantar os olhos e não hesitavam em aumentar a voz quando julgassem necessário.

A mistura de tchecos mal-humorados com brasileiros intolerantes, como era de se esperar, foi explosiva. No começo, eram só resmungos. Bastava um segurança começar a nos seguir na loja para eu ficar irritada. Depois, veio a fase de revide. Se o caixa era folgado, a gente não deixava por menos. Mas aí chegamos à parte mais delicada, a dos bate-bocas. O primeiro e maior deles aconteceu num banco, onde fomos maltratados por uma funcionária. Acabamos na sala da gerente, onde ela se desmanchou em desculpas. A outra discussão, para fechar a estadia, foi com a dona da pensão onde nos hospedamos, uma senhora mal-educada e sem noção alguma de boa administração.

Foi curioso chegar ao fim dessa sonhada temporada fora do Brasil de uma maneira tão desagradável. O nível de estresse estava nas alturas, mas fazíamos uma força danada para manter o controle. Acabamos envolvidos em confrontos absolutamente justificáveis e aprendemos. Há momentos em que é preciso rebater sem culpa.

No ônibus, a caminho do aeroporto, fiquei pensando na necessidade de passar por essas situações. Porque viagem não é apenas uma sucessão de episódios felizes e gloriosos. Felicidade garantida só existe em comercial de absorventes, onde mulheres saltitantes de calças brancas vivem às gargalhadas. Sabemos que a fórmula pronta de felicidade constante é uma bobagem que nos aprisiona, mas por que, diabos, insistimos em acreditar nela e nos frustrar a cada imprevisto?

A cidade com ares de contos de fadas, quem diria, nos deu uma boa dose de realidade. Era um aquecimento, o Brasil ainda estava por vir.

Pontos fortes: a beleza de Praga e a boa infraestrutura turística

Pontos fracos: a antipatia e falta de tato dos tchecos com os visitantes. Não deixe de ir para lá, mas aviso: vá blindado.

Bola fora: tentar descansar no parque do castelo. Quem sentar no gramado toma um pito do guarda. Outra mancada é trocar dinheiro nas casas de câmbio sem prestar atenção nas cotações exibidas nas placas. Eles só exibem o preço de compra na entrada, que é menor que o de venda. No mínimo, isso é má fé.

Você não pode perder: A Catedral de São Vito, uma magnífica construção gótica iniciada em 1344 e a lindíssima Ponte Charles, uma obra com 520 metros, cuja construção foi iniciada em 1357. Dos dois lados da ponte há réplicas de estátuas com imagens de santos católicos. E a vista do rio Vltava é linda, principalmente no final da tarde.

Você pode dispensar: viela dourada do Castelo de Praga, uma ruazinha estreita ladeada por pequenas casas construídas no século 16 e hoje ocupadas pelo comércio de quinquilharias turísticas. De que adianta ter casas antigas se não é possível conhecê-las por inteiro? Resumindo: um engodo.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Retrospectiva 13: Hungria


Buda (abaixo) e Peste (acima), duas partes separadas pelo Danúbio Mais fotos aqui



Por que a Hungria? Pelo óbvio. Desde que li "Budapeste", do Chico Buarque, sonhava com a cidade amarelada descrita por ele. Em poucos dias devorei as 174 deliciosas páginas que narravam a vida de José Costa e guardei na mente uma foto envelhecida de ruas estreitas e folhas secas. Imaginava uma capital pequena de prédios imponentes, mas a imagem se desfez assim que o nosso ônibus pegou uma larga avenida de subúrbio. Era uma Marginal Tietê mais ajeitada, com galpões pré-fabricados, tráfego pesado e nenhuma imaginação.

Aquela realmente não era a Budapeste do Chico. Estávamos no subúrbio, bem longe das belas pontes que cruzam o Danúbio e nos levam aos dois lados da cidade. Buda, do lado oeste, é a parte velha e turística da capital húngara. Na outra margem fica Peste, onde o novo predomina, ainda que salpicado de edifícios históricos e muito charme. Mas toda a beleza da cidade ainda não fazia parte da nossa realidade naquela manhã. Teríamos que passar primeiro pelo purgatório.

Foram oito horas de viagem dentro de um micro ônibus lotado e sem ar-condicionado. Poucos minutos de sono tranquilo num trajeto em ziguezague. Incontáveis paradas pelo caminho, incluindo as demoradas fiscalizações da polícia de fronteira da Eslováquia. Os olhos estavam pequenos e as mochilas, cada dia mais pesadas. No hotel, fomos informados que não poderíamos descansar no quarto reservado porque a pernoite só valeria a partir das 14h. Olhei para o pulso, sete da manhã. O jeito era deixar a mala, aquietar o estômago numa espelunca qualquer e fazer hora pela cidade.

Éramos dois moribundos pelas ruas. "Um lugar para deitar, pelo amor de Deus!" Estávamos em busca de um parque, um gramado. Lá estava ele, verdinho, linda à beira do Danúbio. Senti meu jeans grudar na pele. Uma chuva que caíra horas antes acabou com nossas pretensões, mas felizmente havia um desconfortável banco de madeira. Finalmente o sono dos justos!

O segundo tempo seria no hotel, de onde não sairíamos até o dia seguinte. No metrô, deciframos a rede de estações de nomes impronunciáveis e compramos a cartela econômica com 10 passagens. Como é de praxe, validamos dois deles e embarcamos felizes no nosso trem. No meio do caminho, foi preciso fazer uma baldeação, pois estávamos na linha errada. Na chegada ao nosso destino, alívio, faltavam apenas uma escadaria e alguns metros de calçada. Lá no topo dos degraus, duas fiscais treinadas pela Gestapo tentavam flagrar golpistas que viajavam gratuitamente. O Martim entregou nossos comprovantes.

- Vocês terão de pagar uma multa.
- Como?
- 5 mil forints (20 euros).
- Mas por quê?
- Se não pagar agora, pague no correio, mas ficará em 14 mil forints (60 euros).
- Mas por quê?

Enquanto tentávamos entender o que estava acontecendo, elas gritavam as poucas frases em inglês que sabiam. Queriam nossos passaportes, mas nos recusamos a entregá-los. Quanto mais demorávamos, mais elas se enfureciam. Pensei em fugir, mas sabia que seria besteira. Os ânimos foram se exaltando a medida que o volume da discussão, ia aumentando. Tentamos manter a calma e pensar. Decidimos pagar a tal multa, mas sem deixar de soltar uns desaforos.

No hotel, conseguimos entender o episódio com a ajuda da recepcionista que sabia falar inglês. Em Budapeste, paga-se por trajeto em uma única linha. Se precisar fazer baldeação, azar o seu, terá de usar outro bilhete. Como saber isso? Simples, é só saber húngaro.

No dia seguinte, fomos ao escritório de turismo para fazer uma reclamação. Lá, a atendente contou que isso acontece há, pelo menos, 5 anos com turistas desavisados, mas que aquele sistema é "normal". Novo bate-boca. Mais frustração.

A passagem por Budapeste, infelizmente, foi marcada pela pouca simpatia das pessoas e pela evidente falta de preparo para lidar com turistas. A nossa estadia na Hungria só melhorou quando fomos a Pécs (pronuncia-se "Pêtch"), ao sul, próxima à Croácia. Pequenina e acolhedora, a cidade foi um presente para esses dois viajantes cansados de guerra.

Dispostos a uma reconciliação, voltamos a Budapeste. Recomeçamos a nossa relação e como valeu a pena! Exploramos as principais atrações da cidade, entre elas um parque de estátuas do regime comunista, os famosos banhos termais e uma agradável ilhota no meio do Danúbio. Outra decisão acertada foi ter se hospedado na região central, num pequeno apartamento de um prédio antigo e recém-reformado. Os donos, um azerbaidjano e um romeno, eram jovens empreendedores que apostam num boom turístico. Eles acreditam no potencial da capital húngara e esperam que o turismo se desenvolva com mais força. Nós também.

Pontos fortes: a beleza e imponência das cidades e a grande quantidade de atrações

Pontos fracos: a pouca simpatia e o despreparo das pessoas para lidar com estrangeiros. A indiferença beira o desprezo, é irritante. Não sei se faltou sorte, mas foi o que sentimos

Bola fora: a nossa maior mancada foi não saber falar húngaro. Eu devia ter comprado os fascículos do curso rápido de húngaro nas bancas...

Você não pode perder: os banhos termais (fomos ao tradicional Gellert), Pécs e longas caminhadas por toda a cidade, especialmente por Buda, pela ilha Margarida e pelas margens do Danúbio. Para comer, não perca o delicioso restaurante Menza (1061 Liszt Ferenc ter 2)

Você pode dispensar: o Parque das Estátuas, que é um desleixo só. No local, bem afastado da cidade, há um amontoado de símbolos do comunismo que foram poupados da destruição após o fim do regime. Hoje são fonte de dinheiro e alvo de pombos.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Retrospectiva 12: Polônia


O lindo mercado central de Cracóvia Mais fotos aqui



Quando começamos a sonhar com a nossa viagem, pensamos num tour completo pelo leste europeu. Nosso ponto de partida seria a Eslovênia, depois de passar pela França e Itália. Os dois espertos aqui só se esqueceram de um detalhezinho irrelevante: o inverno. Pelos nossos planos, chegaríamos a Liubliana no final de fevereiro, quando a temperatura nos países daquela região está longe de ser agradável.

Mudamos radicalmente o nosso roteiro. Da Itália, partimos para a Grécia, ainda com a vontade de passar, pelo menos, pela Hungria e República Tcheca ao final de nossa viagem. Meses depois, partíamos rumo à sonhada região. Seriam apenas três países, começando pela Polônia.

Não conhecíamos ninguém que havia ido para lá, não tínhamos idéia do que veríamos, nem sabíamos o que esperar dos poloneses. Para quem não sabe, a fama deles na Europa não é grande coisa. Isto porque eles invadiram os setores de serviços (leia-se subempregos) de países ricos depois da entrada do país no bloco econômico. Como nem todos foram absorvidos pelo mercado, viraram clichê em discussões sobre problemas sociais.

Com tantas referências negativas na cabeça, chegamos a Cracóvia prontos para dar uma voadora no primeiro folgado que aparecesse. Grande erro! Nos primeiros minutos em solo polonês começamos a nos desarmar. As pessoas eram solícitas e se esforçavam muito para nos ajudar com uma mistura de polonês, meia dúzia de palavras em inglês e risadinha constrangida.

Depois de um ônibus, um bonde e muita mímica, chegamos ao bairro do nosso albergue. Era mais de meia-noite e naquela rua só estávamos nós, as pesadas mochilas e um homem que parecia voltar do trabalho. "Com licença, você pode nos ajudar?" Ele não falava inglês e fez expressão de dúvida quando viu na nossa caderneta o nome da rua que procurávamos. "Berka Joselewicza, Berka Joselewicza..." Começou dar passos hesitantes e fez um gesto com as mãos para que o acompanhássemos.

Não sei quanto tempo durou aquela caminhada. Vinte minutos? Meia hora? O que sei é que de medo, passei para gratidão. Fiquei me perguntando quantas pessoas mudariam seus caminhos para ajudar forasteiros que não falam uma palavra sequer da língua local. Graças à generosidade dele, chegamos ao número 23 de uma rua que terminava no número 21. É que o 23 ficava no pátio de uma fábrica e só descobrimos isso graças a uma conversa do nosso santo protetor polonês e o vigia de um depósito.

O albergue onde nos hospedamos, chamado Goodbye Lenin, ficava em Kazimierz, um bairro judaico que é uma das atrações da cidade. Para quem gosta de História, o lugar é hipnótico. As paredes descascadas e edifícios antigos remetem a imagens marcantes do século 20 e despertam uma mórbida atração pelos resquícios deixados pelo Socialismo e pela Segunda Guerra.

Felizmente o magnetismo por Cracóvia vai além da política e das cicatrizes. A lindíssima praça Rynek Starego Miasta, localizada no centro da Cidade Velha (Stare Miasto) é um dos muitos exemplos de beleza arquitetônica. Reduzidos a escombros ao fim da Segunda Guerra, os prédios do local foram meticulosamente reconstruídos e voltaram a adornar a agitada região de restaurantes, bares, mesas ao ar livre, galerias de arte e lojas de artesanato. Lá também fica a imperdível igreja de Santa Maria (Kosciól Mariacki), uma das mais impressionantes que já vimos.

Outra atração de encher os olhos é a Mina de Sal de Wieliczka, a poucos quilômetros de Cracóvia. O local de 700 anos de história é patrimônio mundial da Humanidade e atrai visitantes há muito tempo. Nicolau Copérnico, Goethe, Alexander von Humboldt e o Papa João Paulo II foram alguns dos que já passaram por lá. O destaque da visita é a capela de Santa Cunegunda, com suas perfeitas esculturas de sal e suntuosas instalações para festas dentro de uma mina de 327 metros de profundidade e túneis de 300 quilômetros de extensão.

Ficou muito por descobrir naquele intrigante país, mas o mais importante a gente sentiu. Estereótipos são perigosos, podem cegar. Sorte que não abrimos mão da Polônia, um país receptivo e agradável. Bendita intuição!

Pontos fortes: a receptividade, a preservação da História, a beleza arquitetônica, a comida simples e saborosa e os preços acessíveis

Pontos fracos: a infraestrutura turística, que ainda engatinha. Faltam sinalização e atendentes que falem inglês.

Bola fora: ir à tarde para Auschwitz e tentar visitar tudo. É tão grande, mas tão grande que simplesmente não dá tempo. Vá pela manhã para ter o tempo que o lugar merece.

Você não pode perder: a Mina de Sal de Wieliczka, a Cidade Velha (Stare Miasto), o castelo e igreja de Santa Maria. Não deixe de ir a Auschwitz que, apesar de tristíssimo, é necessário. Por coincidência, a gente ainda teve a chance de conversar com um sobrevivente daquele campo de concentração. Inesquecível!

Você pode dispensar: uma ida ao banco para trocar traveller check. As filas são intermináveis, a eficiência é de INSS e não é fácil achar alguém que fale inglês para confirmar se aquela agência aceita esse tipo de transação. Apele para uma casa de câmbio, será menos insalubre.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Retrospectiva 11: Irlanda


Vai encarar os 92 metros de altura? Mais fotos aqui



Guinness, U2, James Joyce, Oscar Wilde, duendes verdes, pubs de gente bêbada. São muitas as imagens na mente quando alguém menciona a palavra Irlanda. Para nós, ficaram duas lembranças fortes: a beleza das Ilhas Aran e a alegre música de um pub na pequena cidade de Ennis. São lugares imperdíveis para quem deseja ir além de Dublin e seus city tours manjados.

Começar pelos principais pontos turísticos da capital irlandesa é, sem dúvida, uma boa maneira de se ambientar nesse simpático país, mas aqui vai um aviso. Se estiver com restrições financeiras, abuse do guia de viagens que trouxe na bagagem e de dicas de atendentes. A maioria das brochuras que estão sobre os balcões dos escritórios de informações turísticas, pasme, são cobrados! E se você tiver mais que um par de horas para seu passeio, dispense aqueles ônibus caríssimos e repletos de gente louca com câmeras neuróticas. Dublin é pequena e plana, dá para bater perna à vontade.

História era uma das suas matérias favoritas na escola? Você sempre quis saber mais sobre a Irlanda? Aqui vai uma dica de ouro: a Prisão Kilmainham, por onde passaram os líderes da independência do pais e toda a produção do filme "Em Nome do Pai". As cenas do Daniel Day-Lewis atrás das grades foram feitas lá. Mas o melhor do local é o trabalho dos historiadores ali empregados. Eles levam os visitantes para um excelente tour guiado e contam detalhes da história de um país sofrido que hoje vive um período de euforia econômica.

Falando nos tempos de bonança que a Irlanda vive, cuidado para não cair duro com os preços. Aquela prima pobre da Inglaterra já era! Agora são os ingleses que imigram para a Irlanda em busca de melhores oportunidades. Dublin vive um boom imobiliário assustador e tudo é muito caro, até supera os preços da Inglaterra e da Escócia.

Apertar o cinto é o jeito de esticar a viagem e conhecer lugares mais interessantes. As Ilhas Aran, mencionadas no começo do texto, são incríveis. Trata-se de um conjunto de três ilhas relativamente isoladas onde a primeira língua ainda é o gaélico. A maior atração é o forte de Dun Aengus, uma misteriosa construção circular à beira de um paredão rochoso de 92 metros de altura. Chegar perto da borda não é fácil, especialmente para quem sofre de vertigem nessas situações. O vento fortíssimo e gelado dificulta passos e palavras, mas a experiência de estar lá compensa qualquer esforço. Para quem é místico, o lugar é um sonho, pois não faltam lendas e superstições a respeito da origem de Dun Aengus. O assunto também é confuso entre estudiosos, mas a teoria mais forte é a de que habitantes teriam construído o forte somente para ostentar o poder da ilha. Como essa hipótese é muito sem graça, prefiro pensar em bruxas e rituais bonitos.

Terminamos a viagem na minúscula Ennis, uma das poucas cidades onde ainda é possível ver e ouvir música irlandesa de verdade. Basta ir a um dos poucos pubs por volta das 20h e esperar. Músicos locais e de outros lugares do mundo vão chegando aos poucos, se ajeitando em um cantinho qualquer. Há fãs do estilo musical que visitam a região apenas pela chance de ouvir e ser ouvido. É como uma roda de samba, onde o pessoal vai puxando mais cadeiras e entoando clássicos. No lugar de pandeiros, violinos. Em vez de garrafas de vidro acastanhadas sobre as mesas, longos copos de cerveja escura. Mas a alegria é a mesma, um pouco contida em rostos avermelhados e corpos compridos. Foi assim que guardamos a Irlanda, um país que finalmente pode sorrir.

Pontos fortes: as paisagens, a História e a amabilidade das pessoas. Fomos muito bem recebidos em casas de família, especialmente na agradável Galway.

Pontos fracos: a relação custo-benefício dos transportes. Os preços são de Primeiro Mundo, mas a qualidade das estradas é bem questionável: estreitas e totalmente remendadas. Fizemos o trajeto Ennis-Dublin (200 km) em incríveis 5 horas. Motivo: não há linhas diretas, mesmo assim a passagem era cara. O tempo lá consegue ser pior que na Inglaterra e na Escócia. Segundo um irlandês que conhecemos, chove 300 dias por ano em Dublin. Verdade ou não, ele não foi o único a reclamar das condições climáticas. Ou seja, dê uma olhada na meteorologia antes de pegar seu vôo para a Irlanda.

Bola fora: ir a pé para a Prisão Kilmainham. É longe e falta sinalização. Dublin peca pela falta de informação, mas felizmente sempre há pessoas para ajudar. Ah, e evite o serviço de ônibus para o aeroporto. É caro, atrasado, lotado e desconfortável. Não há venda antecipada de bilhetes em lugar algum e você tem que esperar 40 passageiros pagarem ao motorista para finalmente o veículo sair do lugar. Depois é Portugal que leva a fama...

Você não pode perder: a Prisão Kilmainham em Dublin, as Ilhas Aran na Baía de Galway e uma noitada num pub de Ennis.

Você pode dispensar: um passeio pela Guinness, a não ser que você seja fã dessa cerveja amarga e intragável. Dispense também a interminável caminhada para o estúdio onde o U2 gravou os primeiros discos. Vale apenas para uma foto de uma parede pichada. Melhor ficar dormindo num parque qualquer.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Retrospectiva 10: Escócia


A vida estressante dos escoceses. Mais fotos aqui



Muito já se falou sobre o paralelo entre clima e comportamento das pessoas. Praianos, por exemplo, são tidos como calorosos, malemolentes e até displicentes. Na outra ponta, povos de países com temperaturas negativas são considerados exatos, responsáveis e frios. Hora de apagar esses clichês da mente! A Escócia é a prova de que essas teorias não passam de generalizações furadas.

O tempo naquele pequeno país de 3 milhões de habitantes é uma droga, mas de frios eles não têm nada. Receptivos, falantes e festeiros, os escoceses adoram fazer piadas contra ingleses e curtem a vida em paisagens estonteantes e cidades deliciosas. Pode-se respirar história em Edimburgo, caminhar horas e horas pelas vilinhas das Highlands ou ferver pela noite de Glasgow, é só escolher.

A região das Terras Altas foi a nossa eleita. Começamos a traçar a rota com a ajuda de um simpaticíssimo escocês do centro de informações turísticas de Edimburgo, um dos melhores nesses cinco meses de mochila. Nossa primeira parada foi Pitlochry, uma bela cidade com apenas uma rua principal e trilhas lindíssimas por todos os lados. Fomos bem acolhidos no albergue da cidade e comemos um delicioso prato escocês numa tradicional cervejaria local.

Depois veio Inverness, um simpático município com muitos atrativos, apesar da baixa auto-estima dos moradores. A maioria acha o local um tédio, mas a gente discorda. A capital das Highlands é agradável e traz uma prévia do passeio mais procurado por lá. O famoso Lago Ness nasce lá e embeleza bastante a cidade.

O próximo destino foi a impronunciável Drumnadrochit, que vive da lenda do bicho apelidado de Nessie e de passeios pelo lago. Há museus, hotéis, restaurantes, tudo com o monstrinho mixuruca na porta. Prato cheio para turistas bobos como nós, que adoram clicar aquelas bizarrices. Mas Drumnadrochit não é só isso. O filé mignon é o imperdível Castelo de Urquhart, o sítio histórico mais visitado das Terras Altas e um dos principais cartões-postais do país. Fãs de filmes de História Medieval dificilmente não se emocionam por lá, o lugar é realmente incrível. Até eu, que não me impressiono com lendas de cavaleiros honrados, belas donzelas e batalhas sangrentas, achei tudo sensacional.

Falando em roteiros manjados de Hollywood, fomos ao cenário de um dos maiores sucessos da indústria cinematográfica nos anos 90: Coração Valente. O Ben Nevis, ponto mais alto da Grã-Bretanha, fica na tranquila cidade de Fortwilliam, onde nos hospedamos numa casa de família no alto de uma colina. Tudo muito bonito se não fossem as escadas intermináveis e a mochila de 12 quilos nas costas.

O tour terminou na moderna Glasgow que, apesar do agito de cidade grande (pelo menos para os padrões locais), mantém a beleza e organização da Escócia. Ficou muita coisa para ver em uma próxima oportunidade, especialmente a deslumbrante Isle of Skye, mas deixamos o aeroporto rumo à Irlanda com uma grande satisfação. Realizamos um sonho antigo e a Escócia correspondeu a todas as nossas expectativas. Precisa de mais?

Pontos fortes: a simpatia dos escoceses, as paisagens deslumbrantes, as distâncias curtas e a competência do governo para promover o turismo. O uísque é outro atrativo, mas detestamos essa bebida, então fica aqui só uma menção.

Pontos fracos: os preços, ainda mais altos que os praticados em Londres. O tempo também deixa a desejar, mas felizmente pegamos alguns dias de sol.

Bolas fora: Procurar hotel, albergue ou bed & breakfast barato, é perda de tempo! Chegar faminto a Fortwilliam ou a qualquer outra cidade pequena num final de tarde de domingo também não é boa idéia. Tudo vai parecer um grande velho oeste à espera de um duelo e seu estômago certamente vai roncar.

Você não pode perder: Edimburgo, as inesquecíveis Highlands, o Castelo de Urquhart e o majestoso Ben Nevis. Vale aqui uma dica: compre o Explorer Pass do Citylink se quiser visitar muitas cidades em poucos dias, a economia será considerável.

Você pode dispensar: qualquer atração sobre o monstro do Lago Ness e uma ida de estômago cheio ao Ben Nevis. Aquela curta estradinha em ziguezague vai parecer trajeto São Paulo-Rio.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Retrospectiva 9: Londres


A capital inglesa foi nosso pitstop. Mais fotos aqui


A chegada a Londres não podia ser mais típica. Assim que saímos do avião e pisamos na pista de pouso de Luton, fomos recebidos por uma chuva torrencial. Molhados, desagasalhados e visivelmente mal-humorados, fomos pegar nossas malas e dar uso à nossa calculadora comprada num chinês de Sevilha. A primeira experiência com nossa maquininha foi na casa de câmbio. Feitos os cálculos, preferimos sacar libras do nosso cartão, pois, por incrível que pareça, as taxas seriam menos extorsivas.

Famintos, resolvemos comer um sanduíche no aeroporto antes que uma tremedeira nos abatesse. Quando vimos o preço do lanche desbotado que levamos numa bandeja ao caixa, percebemos que nossa estadia seria mais seca do que a nossa refeição. Enquanto mastigávamos aquela massa insossa com promessa de algum sabor, veio a luz. Era hora de restringir o uso da maquininha chinesa aos dolorosos momentos de troca de traveller checks. E foi isso que fizemos. Acionamos o botãozinho "pensar em libras", só assim seríamos minimamente felizes.

O plano deu certo. Aos poucos, fomos relaxando, especialmente quando chegamos ao hotel baratíssimo que havíamos reservado pela internet. O estabelecimento ficava no inferno de Londres, é verdade, mas, aleluia, tinha banheiro no quarto! Vocês não imaginam o prazer que sentimos quando vimos a TV, a cama macia e as toalhas limpas e cuidadosamente dobradas nos esperando. E adivinhem o que fizemos? Ficamos enfurnados naquela pocilga, é claro. Até a manhã do dia seguinte, quando teríamos café da manhã servido por amáveis polonesas que, gentilmente, passavam aspirador durante a refeição dos hóspedes, arrancavam tudo das mesas e berravam palavras gentis para as outras funcionárias.

Começamos a explorar Londres lentamente. Seguimos o roteiro da família do Martim e algumas lembranças que eu tinha da cidade na minha passagem por lá há 6 anos. Quando o tempo colaborava, caminhávamos feito loucos ou curtíamos o calorzinho ameno num parque qualquer. Quando São Pedro nos sabotava, entrávamos em museus, felizmente gratuitos, ou planejávamos os próximos passos da viagem numa internet barata com música indiana ensurdecedora.

É claro que deixamos de ver muita coisa, mas não nos arrependemos. Londres foi nosso pitstop, a hora de parar e finalmente dormir numa boa cama. Hora de longos banhos e xícaras aquecendo nossas mãos. Passamos horas no imperdível Museu de História Natural e caminhamos, felizes, ao longo do Tâmisa. A alimentação, como era de se esperar, não foi assim, incrível. Apelamos para lanches pouco saudáveis da rede de supermercados Tesco, mas graças a uma dica preciosa do Gera, conseguimos comer comida de verdade e barata num restaurantezinho no centro da cidade.

A impressão que ficou? No começo, ficamos assombrados com a semelhança entre Toronto e Londres, mas aos poucos essa sensação foi se diluindo. Porque a capital inglesa é única, diversificada, viva e imperdível. Pena que a gente não estava com o pique que essa cidade merece.

Pontos fortes: o imenso número de atrações, os incríveis museus, os parques impecáveis e a organização tipicamente britânica

Pontos fracos: é lugar comum, eu sei, mas preciso repetir: a comida. Aquilo é um pesadelo! Os preços também são terríveis, mas nada é mais desagradável que o tempinho miserável daquela cidade. Sorte que existe verão, pelo menos por algumas semanas!

Bola fora: decidir repentinamente fazer um piquenique. Melhor consultar os serviços de meteorologia antes ou você correrá o risco de lanchar dentro do metrô depois de tentar achar algum lugar seco para comer. Faltam locais indoor para as refeições de mochileiros pobretões.

Você não pode perder: o Museu de História Natural, o British Museum, um passeio às margens do Tâmisa, um dos lindíssimos parques da cidade, Camden Town...(a lista de atrações é interminável)

Você pode dispensar:London Eye e Madame Tussauds, ambos caríssimos e cretinos