Que orgulho!
Fazia tempo que a gente estava na expectativa para a convocaçao da Seleçao para a Copa do Mundo. Sabíamos que seria no dia 15 de maio e eu pensava: nesse dia, a manchete do Brasil pelo mundo será o anúncio da nossa equipe de estrelas.
Finalmente chegou a aguardada data e realmente o Brasil estava em destaque nos jornais daqui da Espanha. Mas em vez de orgulho, senti vergonha. Na capa do El País, a foto principal era de um refém do PCC num presídio de Sao Paulo. Na página 2, uma longa reportagem de página inteira e um editorial explicando o inexplicável.
Ontem, em Sevilha, enquanto via sapatos de flamenco, conversei rapidamente com a dona de uma loja.
- Você é brasileira? Nossa, que barbaridade isso que está acontecendo em Sao Paulo, heim? Vi na TV hoje, que triste!
Fiquei sem saber direito o que dizer, pensei em explicar um pouco do que sei, mas percebi que era complexo demais para aquela senhora acostumada à vida calma de Sevilha. Preferi economizar palavras, apenas lamentei a situaçao e saí de lá cabisbaixa, pensando na barbárie que nos acostumamos a viver.
Na Internet, li mais sobre o que estava acontecendo. Na Folha, o nome do especial para o ocorrido neste final de semana é "Sao Paulo sob ataque". Achei esse título um curioso, é como se a cidade nao estivesse sob ataque há anos. É como se as dezenas de mortos em chacinas e acertos de conta por final de semana fosse algo absolutamente normal.
Entendo que a situaçao desta vez é atípica, mas o que me dói é que todo esse barulho feito pela imprensa e pelo governo vai cessar em pouco tempo. Em algumas semanas, a Copa do Mundo vai estar no centro das atençoes. Eu, você, o Marcola, o Lembo, o Lula e todos os brasileiros estarao confiantes na nossa fabulosa Seleçao e Sao Paulo nao estará mais sob ataque. Ufa, que alívio!

3 Comments:
Ma & Ma
Lamentamos muito este típo de notícias. Realmente essa é a realidade, dóa a quem doer!.
Isto é Brasil, as tristesas são compensadas com as alegrías.
Bjs e ate a copa
É isso mesmo Lú, estamos constantemente sob ataque. Mas realmente a segundona aqui parecia guerra. Entre 14:00 hs e 15:00 hs, todos foram dispensados do serviço, as escolas e comércio fechados, 16:00 hs era um caos no trânsito, metrô e trens lotados, e ônibus ninguém tinha coragem de pegar. A Paulista e imediações completamente parada, no rosto de todos, o medo. Ninguém sabia se uma hora podia estourar uma bomba em qualquer lugar ou passar um motoqueiro com um garoupa dando rajada de metralhadora. Fiquei assusntado, como todos. Voltei com o Raul, nessa hora vem aquele sentimento de que é hora de se estar com as pessoas importantes da nossa vida, e que de nada vai adiantar chegarmos são e salvos em casa se todos nossos entes queridos assim não cheguem também. Em casa liguei pra Simone e pedi pra ela não ir pra a escola a noite. Só com todos em casa, telefonemas pra lá e pra cá e vendo que todos estavam "debaixo da cama", fiquei tranquilo. E assim como eu e nossa família, todos fizeram, as ruas ficaram desertas e viraram o cenário perfeito para os helicópteros de tv filmarem as operações várias operações policiais ao vivo. Muitos mortos nessa noite, e pela manhã de terça, ninguém sabia se a vida voltaria ao normal, mas foi voltando aos poucos. Agora está mais ou menos normal, mas o normal é como você já bem disse, o caos, o medo de chegar em casa e abrir o portão se alguém estiver por perto, de parar num farol, de atender a porta. O normal é a guerra não declarada, o atípico foi a declaração dessa guerra, por um dia. Vivemos o que grande parte da periferia vive todo dia, toque de recolher. Lá, se acontece alguma coisa com os traficantes, nada abre, e todo mundo já sabe disso, tem até horário máximo pra se chegar em casa. Mas nós, classe média, e a elite, nem ligamos pra isso, só quando a água bate. Comparo essa situação a uma casa onde os ratos dominaram o porão. Você sabe que lá está assim, mas de vez em quando a única coisa que faz e fechar bem a porta do porão e só abrir bem rápido pra jogar uns restos lá dentro, afinal porão é pra isso. Contando que eles dominem só lá, vc nem liga, até fomenta a existência deles. Mas o dia em que eles derrubam a porta, invadem a sala, a cozinha e o banheiro, vc fica apavorado, sobe na mesa e grita, "até que ponto chegamos!". Essa era a frase que mais ouvia segunda. Mas a copa tá aí, e parte do que os presos queriam já conseguiram, tvs pra assistir a copa. E afinal o que importa tudo isso, se poderemos ser hexa? É isso, salve a seleção! (e se sobrar um tempinho, salvem SP!!)
Má, tô feliz por você estar bem. Num país que vc sempre sonhou. As coisas nunca acontecem como imaginamos.
Quanto ao ataque de São Paulo, foi terrível, nunca tinha vivido uma situação parecida antes. Nunca fiquei com medo de que metralhassem a porta da imobiliária em horário de expediente.
Mas tá passando, pelo menos por enquanto, eu acho que isso é só um teste. Ver se realmente eles já podem dominar o estado. Porque, quando eles tiverem certeza disso, o meu medo é que o país seja dominado.
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