quarta-feira, abril 20, 2005

Ser estrangeiro

Falando em falta de identidade...Uma coisa que sempre foi muito presente na minha vida é essa sensação, agora mais latente, de ser estrangeira. Sou brasileira sim, mas filha de bolivianos. Meu coração sempre foi dividido e tudo o que aprendi veio de uma mistura de culturas e informações. Em casa, quase nunca comemos feijão com arroz, tomamos café ou ouvimos samba, mas aprendemos a gostar de todas essas coisas. Meus pais nos ensinaram a amar o Brasil em primeiro lugar, a falar português corretamente e a entender todas as nuances da nossa cultura.

Hoje, que estou numa cidade cheia de sotaques e raças diferentes, tenho pensado muito nos meus pais, especialmente nas escolhas que eles fizeram. Semana passada, ouvimos uma mãe portuguesa chamando o filho com uma frase incompreensível, uma mistura maluca de inglês e português. Aquela situação nos pareceu triste, refletia uma falta de identidade. Eles não eram nem portugueses, nem canadenses, eram apenas
estrangeiros.

Quando meus pais escolheram falar apenas em português em casa, eles nos deram a chance de ter uma identidade e a segurança de se sentir parte de um país. Para mim, isso foi um presente e tanto porque hoje sinto que apenas "estou" estrangeira no Canadá.

Estar estrangeira, para mim, é se sentir nômade, é ter um espírito cigano de desprendimento. Sentir isso é muito bom, dá um ar de leveza à vida. O problema é que nômades não têm elo com coisa alguma. Quando eu cursava História, aprendi que um indício de que uma tribo deixou de ser nômade é a presença de cerâmica entre os objetos do grupo, já que ela se quebra com facilidade quando transportada. É
por isso que eu não trouxe nada de cerâmica na mala, mas sei que, mais para frente, vou querer algo bem frágil em minhas mãos.

5 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Oi Marta; Achei seu post bem interessante. Eu me sinto estrangeira ainda por aqui, é difícil criar as raízes. Abrçs,

8:02 AM  
Blogger Frontera said...

Obrigada, Monique
Tb sinto isso que vc está falando sobre criar raízes, apesar de estar aqui há pouco tempo. Talvez seja efeito de uma cidade tão cosmopolita, não?
Beijos

10:01 AM  
Anonymous Anônimo said...

Oi,Marta!
Sabe que além de ficar informada das novidades, estou feliz por estar conhecendo um pouco mais de vc, as vezes começo a ler o texto e acho que é o Martim, mas o qual!
Descobri que vcs tem muito em comum
Feriado de 21/04 :"Tiradentes deveria ser o padroeiro do Brasil,tá todo mundo enforcado". (Zé Simão)

8:52 PM  
Blogger Frontera said...

Cris
Esse Zé Simão é muito engraçado, eu adoro. Gosto mais ainda quando vc me manda as novas tiradas dele.
Realmente eu e o Martim somos bem parecidos, encontrei minha alma gêmea!
Beijos a todos e um especial para vc

12:00 PM  
Blogger Frontera said...

Gi
Sua adivinhona, hehehehehe! Sim, um dia vem um filhote, um dia!
Mande o endereco do seu blog, quero ler
Beijos

5:29 PM  

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