Confissões de adolescente
A lição dos últimos dias foi aprender a dizer não. Pode parecer estranho, mas dizer não é uma tarefa dificílima, ainda mais quando a gente está aprendendo a ser gente grande. Significa impor seu espaço, mesmo que para isso você tenha que aguentar cara feia e reclamação. Significa aprender a dizer, sem a menor culpa: não, não tô afim. E pronto!
Quando a gente é adolescente, diz sim para tudo, mas finge que diz não, que é rebelde. Aceita as chatices do povinho descolado e as marcas que aparecem nas revistas, seja de roupa, prancha de surf, guitarra ou computador. E não adianta dizer que com você foi diferente. Todo mundo passou mais ou menos pelo mesmo mecanismo, seja entre patricinhas, surfistinhas, metaleiros, nerds ou isolados. Todos nós ficamos imensamente inseguros naqueles tempos, sem saber direito onde pôr as mãos quando chegava a uma festa. Elas sobravam, penduradas nos nossos braços. Suavam. Restava os bolsos do jeans como refúgio ou a manjada dupla cerveja e cigarro. E assim se via a festa do alto, muita gente apoiada sobre duas pernas, uma garrafa de vidro marrom e um Marlboro.
Depois dos 20 e poucos anos, a história começa a mudar. Você começa a selecionar melhor os lugares onde frequenta, os filmes que vê, os livros que lê, a cerveja que bebe e os amigos com quem conversa. Aos poucos, a lista de telefones vai diminuindo, as festas deixam de tocar só porcarias e sua tolerância com gente mala cai a zero. E aí surgem os primeiros nãos, com mais força. Não gosto de sertanejo, não tolero uísque, não suporto patricinhas, não aguento papo de dona-de-casa, não suporto filmes com o Ben Affleck e quero matar gente que enche a boca para citar Weber sem ter lido sequer o xerox do capítulo completo para a prova.
Entre os 20 e 30 anos, a gente não é adolescente nem adulto. Para alguns assuntos, mostramos maturidade de poucos. Em outros casos, surgem aqueles olhinhos assustados, sofrendo com conflitinhos internos lá dos tempos da adolescência. Como dizer não? E se eles não gostarem da minha decisão? E se não gostarem mais de mim? E no meio desse embate, sai um sim, meio resmungado, seguido de um profundo arrependimento.
Depois que a gente aprende a dizer não, é difícil voltar a dizer aquele sim de vaquinha de presépio. Mas o maior desafio para pós-adolescentes e pré-adultos como eu é aprender a dizer não com cara de nada, sem a menor culpa. É reconhecer que algumas pessoas, hábitos ou atividades te fazem mal. Basta dizer não e segurar as pontas. Sem medo!

1 Comments:
ô lu, queria que vc pudesse passar um pouquinho dessa sabedoria incrível pra essa pobre amiga... beijos com muita saudade
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